em qualquer estação

é perto que mais somos.


[das anotações do autor]





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        Buenos Aires



– Você nunca sonhou com um homem careca que atende pelo nome de Oriegn Artse?

Gostaria de não ter respondido. De conseguir resistir e não dar continuidade à conversa. Mas talvez me fosse arrepender. Há dias – e pessoas – que se revelam mais poderosos do que bons momentos de ficção.

– Nunca sonhou, ou não se lembra? Um tipo bem vestido, fala baixo. Faz lembrar aquele... Ben Kingsley, mas mulato. Nada?

Por mim ficava a tarde toda assim, mudo, sorrindo ou em total abstração, a aguardar a progressão do relato. O homem tinha em si a estranhíssima serenidade de quem conhece o destino e a profundidade da sua missão. As suas perguntas não carregavam um pingo de exagero.

– Mas nunca sonha... Ou nunca sonhou com o mulato careca, Oriegn Artse?

– "Nunca" é uma palavra forte de mais – acabei por dizer. – Digamos que sonho muito pouco.

– Ah!, isso é diferente. Conheço bem a raça dos que não sonham de todo. E você não me parece um deles. Pelo contrário...

Novamente o olhar. Agora vinha com uma réstia de sugestão à qual era suposto eu reagir. Mas a verdade é que, em todos os momentos, o homem parecia falar comigo apenas para cumprir a urgência de uma outra preocupação. Como se falar comigo fosse um atalho para outros lugares. Outras palavras até.

– Muito pelo contrário... – insistiu o homem. – Você diz que sonha pouco, mas estou convencido de que sonha bem.

– E como seria sonhar bem?

– Você sabe melhor do que eu. A intensidade. O regresso dos mesmos episódios. Mas não se preocupe. Esses seus sonhos que se repetem não me dizem respeito.

Desviei o olhar. O toque demasiado certeiro daquela descrição incomodava-me. Só faltava ele saber, ou anunciar em voz alta, que conhecia o conteúdo dos meus sonhos cíclicos.

– É como lhe disse, sonho muito pouco.

– Mas do pouco que sonha, lembra-se de algum rosto? Alguém que não seja a sua família, que apareça inusitadamente no sonho... Um intruso, digamos assim. Sabe? Na perfeição fílmica dos sonhos, o intruso aparece desfocado, mal resolvido. Ou se destaca dos outros por fatores físicos, como a cor, ou a dimensão, ou pelo comportamento, digamos, fala uma língua que ninguém entende, fala de coisas que nada têm a ver com a ação que o sonho pretende. Então?

– Nada. Desculpe. Não estou a ver...

– Faça um esforço, homem! – pegou-me no braço revelando o tom sincero da sua súplica. – Faça um esforço que eu ajudo-o. Feche os olhos, procure lembrar-se. O nome é exatamente este que lhe disse: Oriegn Artse. E quanto a isto, não há o que enganar: nalguma frase, nalguma janela embaciada, nalgum bilhete, nalguma carta, nalguma mensagem – seja de que tipo for –, este homem, mulato, careca, bem vestido, deixa o seu nome nos sonhos. É o que ele faz. Foi o que me fez a mim.

Olhei para a sua mão no meu braço. O homem recuperou a respiração. Controlou o olhar. Afastou a mão. Tossiu levemente.

– Mas você, sim, já sonhou com este homem? – não resisti à pergunta.

– Claro. Mas comigo foi diferente. Não foi só uma vez. Mais do que isso: Oriegn Artse deixa-me recados nos sonhos dos outros. Condenou-me à curiosidade de ir montando um puzzle que se revela perpétuo.

– Mas ninguém é perpétuo – brinquei. – Salvo raríssimas exceções.

– Somos perpétuos enquanto duramos, meu amigo. E vou dar-lhe uma má notícia: homens como nós sonham até ao fim.

– "Homens como nós"?

– Sim. Você sabe perfeitamente ao que me refiro. É a maldição dos homens que podem sonhar. Nada tem a ver com a lucidez ou a demência. Havemos de sonhar até ao fim.

– Não haverá exceções?

– Não, meu amigo. Falo novamente da intensidade dos sonhos: uma vez aberta a porta, é para sempre. Por isso lhe perguntei sobre esse homem que deixa recados para mim nos sonhos dos outros.

– É isso que o senhor procura? Um recado?

– Não sou eu que procuro, tente entender de uma vez por todas. É ele que os planta. A mim resta-me encontrar esses pedaços espalhados pelo mundo e sobreviver à humilhação de ter estas conversas aparentemente loucas.

    (...)



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        Laranjeiras


        ...que era uma estória

        que a enfermeira um dia se lembrou de me contar



Havia flores por todos os cantos. Sorrisos tristes, velados – a não ser que alguém, algum dia, decidisse partilhar o segredo.

O padrinho tinha ordenado as flores. Era o que se dizia. Entre as enfermeiras e outros pacientes, o que se lia era uma alternância entre lágrimas e contentamento. E a palavra "padrinho". E as flores, muitíssimas. Nas casas de banho, corredor, janelas, em todos os quartos daquele piso.

Para espanto meu, o padrinho ainda ali estava. Molhava as flores. Compunha um jarro e – de trás, juro! – era a figura do Zeca Diabo. De frente, quando se virou, era ainda mais o Zeca Diabo. Ou, como direi para melhor dizer?, era ele mesmo. O próprio.

Tinha envelhecido umas décadas, o bigode agora esbranquiçado, mas o mesmo ar perigoso e pueril, as mesmas mãos desajeitadas, a mesma hesitação na voz. Até uma pistola à cintura.

Não soube resistir:

– Zeca Diabo...?

Agora de frente, de tão perto, via-lhe os olhos tão encarnados que me era custoso não absorver tanta tristeza. A voz de Lima Duarte soou inconfundível:

– Zeca Diabo... ou Sinhozinho Malta... Depende do dia.

– Do dia?

Continuava a arranjar as flores. Mexia nelas com ligeireza.

Eu, confesso, não sabia o que sentir. Ele passou-me um ramo volumoso para as mãos e passei a colaborar no que eu não sabia o que fosse ser aquilo.

Esperei, calado. Ajudei. O colete azul, talvez isso, fosse um adereço do Sinhozinho. Mas o resto era o Zeca...! Era o Zeca ao vivo... – a mexer nas flores, a fungar do nariz, a limpar as lágrimas.

– Meu afilhado que morreu... – disse, ao fim de meia hora.

Não soube o que dizer. O meu ímpeto era perguntar pelo Seu Dirceu, esse borboletista militante, etéreo. Depois, perguntaria pelo Odorico. Num terceiro momento eu quereria falar com o próprio Sinhozinho e perguntar notícias da Dona Lulú. E aquilo saiu-me assim:

– O senhor sabe que eu sou angolano?

– Você também...? – um mínimo sorriso nasceu no canto da boca de Zeca Diabo.

Quem seria o outro?

– É você o padrinho que trouxe as flores? – tentei recomeçar.

Ele sentou-se.

– Eu mesmo.

– Mas... Quem era o afilhado...? Ainda não entendi.

– Era o angolano.

Respirei fundo. Às vezes respirar é a chave que nos abre o futuro. Olhei as botas gastas, as pulseiras, o chicote preso no pulso. Só faltava que lá fora estivesse o seu cavalo. Sentado ao meu lado, juro mesmo: nada mais nada menos do que Zeca Diabo!

    (...)




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o céu não sabe dançar sozinho

(edição brasileira: lingua geral)


sonhos azuis pelas esquinas

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“Ondjaki já nos habituou a uma escrita segura e elegante (…)“

Agripina Carriço Vieira



“O fio fino da literatura passa por aqui e move-se. O futuro começou.”

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Para onde eu vou

Ferve a luz

Debaixo dos tectos

Há ontem e amanhã

Amores com pele de líquen

Sonhos azuis pelas esquinas

Ali não é preciso nada

Guardamos o lugar

Com palavras

(...).


Paula Tavares,

in "Como veias finas na terra" (2010)