os vivos, o morto e o peixe-frito [ teatro ]       

br:    Pallas / 2014

pt:    Caminho / 2014


    aos meus amigos

    Paula Nascimento, Daniel Martinho, Miguel Sermão, Ângelo Torres, Dalton Borralho, Mina Andala e Fernanda Almeida.

   

    ao mais-velho Tamoda; ao mais-novo João Vêncio – inspirações maiores do nosso quotidiano criativo...





    [...]


    Em Lisboa, no dia em que a selecção de futebol angolana defronta a selecção portuguesa, num minúsculo apartamento, irão juntar-se caboverdianos, angolanos, são-tomenses, guineenses, moçambicanos e portugueses, mais o bebé na barriga da futura noiva, as cervejas, a pistola, o futuro noivo, a comida, os diamantes na barriga do padrinho e o vizinho morto que ainda adora futebol.

    JJMouraria nunca tinha vivido um dia assim!




    [...]


personagens


João Jonny Mouraria (ou “J.J.Mouraria” – São Tomense já português)

Manguimbo (ou “padrinho” – angolano)

Titonho (amigo do morto – caboverdiano, com sotaque caboverdiano)


Solene (mulher do guichet – negra, portuguesa, com sotaque de Portugal)

Mana São (mulher da fila – angolana)

Makuvela (o estudante – moçambicano)

Concertino (ou "Securíta", o segurança - português)


Mário Rombo (pai da noiva – angolano)

Nadine (mãe da noiva – moçambicana)

Guilhermina (ou “MINA”, a noiva – portuguesa)

Quim (ou “tio Quim”, tio da noiva – angolano)

Fatú (a vizinha – guineense)

Morto (ou falecido, ou finado, ou defunto – guineense)



[...]



MANHÃ FRIA.

LADO DE FORA DO EDIFÍCIO “MIGRAÇÃO-COM-FRONTEIRAS”.

TITONHO APROXIMA-SE CAMINHANDO DEPRESSA. ENCONTRA UMA FILA NA PARTE DE FORA DO EDIFÍCIO. A SENHORA IMEDIATAMENTE À SUA FRENTE É MANA SÃO.


TITONHO:

Bom dia, minha senhora.


MANA SÃO:

Bom dia.


TITONHO:

Como é, a fila está a andar?


MANA SÃO:

Está mais ou menos.


TITONHO:

Mais ou menos é como então?


MANA SÃO:

É só assim, malembe-malembe. Devagarinho.


TITONHO:

E não se pode entrar mesmo?


MANA SÃO:

Entrar? (ri-se). Entrar é daqui a duas horas... Você não acabou de chegar?


TITONHO:

Vejo que a senhora é angolana.


MANA SÃO:

Angolana e benguelense. E o senhor, cabo-verdiano, não?


TITONHO:

Cabo-verdiano, muito prazer, sou António, mais conhecido aqui em Portugal por “TITONHO”.


MANA SÃO:

(rindo) TITONHO?..., sou a Conceição, mais conhecida aqui e em todo o lado por Mana São.


UM SEGURANÇA FAZ SINAL, A FILA AVANÇA UM POUCO, ALGUMAS PESSOAS CONSEGUEM ENTRAR NO EDIFÍCIO ABRIGANDO-SE DO VENTO. O SEGURANÇA FAZ SINAL PARA MANA SÃO ENTRAR NO EDIFÍCIO, E JUSTAMENTE MANDA PARAR TITONHO QUE FICA DE FORA.


TITONHO (para o segurança):

Meu amigo, dê-me só licença (tentando entrar) que eu estou aqui junto com a minha prima Mana São.


SEGURANÇA:

(espantado) Sua prima?!, mas você acabou de a conhecer...


TITONHO:

Nós, africanos, aqui na Europa, somos todos primos. De qualquer modo está muito frio aqui fora, deixe-me lá ficar junto da minha prima.


SEGURANÇA:

Desculpe, mas não pode ser, tem que aguardar aqui fora. Uma fila é uma fila, o senhor tem de ter paciência.


TITONHO:

(forçando para ficar do lado de dentro) Eu até tenho paciência, mas o problema é este vento desagradável. E mais uma pessoa não vai tirar vez de ninguém. Você não tem frio?


SEGURANÇA:

Tenho frio e tenho ordens. Vá lá, espere um bocadinho que já entra. Isto agora é verão, daqui a pouco já passa o ventinho.


OUVEM-SE VOZES DE RECLAMAÇÃO. NO FIM DA FILA UM HOMEM DE APARÊNCIA JUVENIL (J.J.MOURARIA) SAI DO SEU LUGAR E VEM REFILAR COM O SEGURANÇA.


JJMOURARIA:

Ó “Segura”, você não vê que está a falar com um mais velho dikota propriamente dito e (virando-se para TITONHO) bom dia que já vamos resolver isto.


TITONHO:

(com frio, esfregando os braços, endireitando no braço esquerdo uma fita negra) Bom dia.


SEGURANÇA:

Ó meu amigo, aqui ninguém falou mal com ninguém, eu estava a explicar a este senhor que...


JJMOURARIA:

(interrompendo) Aqui não há explicações de porque-why e ding-dong-bell. Este aqui é um nosso mais velho considerado, para mais em outros assuntos que você desconhece.


SEGURANÇA:

(tentando falar) Mas eu não disse...


JJMOURARIA:

Abstenha-se de fazer ruído logo pela manhã, ó “jovial segúra”


AS PESSOAS NA FILA RIEM.


JJMOURARIA:

Você não tem olhos de ver que este mais velho está indevidamente resfriado nesta posição e precisa de resguardo a todos os níveis?


SEGURANÇA:

O quê? Não entendo.


JJMOURARIA:

Faça por isso, meu jovem, faça por isso. (Mais sério, a olhar para o segurança) Abra a porta, por favor. Este nosso mais velho dikota-diami está enlutado numa tristeza muito própria. Você não viu a farpela lateral no braço?


SEGURANÇA:

(Abre a porta, vira-se para Mana São) É que realmente não entendo...


MANA SÃO:

Ele está a dizer que o TITONHO, além de ter frio, está de luto, e que você deve respeitar e ajudar. Você nunca esteve enlutado?


O SEGURANÇA FICA CONFUSO.


JJMOURARIA EMPURRA TITONHO PARA DENTRO DO MCF E FICA ELE PRÓPRIO LÁ DENTRO. DEPOIS VIRA-SE PARA O SEGURANÇA.


JJMOURARIA:

Muito obrigado jovial “segúra”, a comunidade africana aqui presencial agradece a tua sensibilidade para com as temperaturas sentidas nesta manhã.


SEGURANÇA:

(murmurando) Parece que vamos ter caldo de “muzinguê”...


JJMOURARIA:

(Ignorando-o) Já agora (virando-se para mana São e TITONHO), se os mais velhos admitem o parlapiê, aproveito para redigir oralmente a minha graça.


MANA SÃO:

(rindo) Há com cada um...


JJMOURARIA:

Atendo pelo internacional nome de Jota Jota Mouraria, originário barrigalmente das terras de S. Tomé e Príncipe, mas já vindo ao mundo nesta capital lisboeta de frios e tanta africanidade. É verdade: Jota Jota Mouraria… (pausa) O “Jota Jota” é de raízes familiares, o “Mouraria” é de afinidades urbanas, muito prazer minha senhora…?


MANA SÃO:

Conceição, mais conhecida por MANA SÃO, e este (aproxima-se de TITONHO) é o seu António, mais conhecido por TITONHO.


JJMOURARIA:

E as coordenadas geográficas, já agora?


TITONHO:

Eu sou de cabo-verde, Santo Antão e a minha prima (olhando para o segurança) Mana São, é do sul de Angola, província de Benguela.


JJMOURARIA:

Verdadeiramente encantado por esta repentina confraternização palopiana. (pausa) Então o amigo é um “morabezístico juramentado”, e a prima Mana São vem das correntes frias de Benguela… Que maneira mais optimística de começar o dia, folgo muito em vê-los aqui nesta nossa cidade afro-europeia.


SEGURANÇA:

Isto vai aqui uma "catchupa"... Belo convívio, belo convívio me saiu na rifa.


O SEGURANÇA AFASTA-SE, INCRÉDULO PELO DIÁLOGO. ABRE A PORTA, DEIXA ENTRAR MAIS PESSOAS.

ENTRA UM SENHOR BEM VESTIDO (MANGUIMBO) E UM ESTUDANTE (MAKUVELA)


SOLENE (senhora do guichet):

Número 73, última chamada, número 73…! (e insiste) Número 73!…


JJMOURARIA:

(alto) Minha senhora, ultrapasse por favor esse número ausente. (pausa) Dê sequência a essa contagem numérica que aqui tem muita gente à espera... (breve pausa) E camarão que dorme perde a senha… (vários risos). Era o que faltava estarmos aqui à espera do tal 73…


MANA SÃO:

(séria, para o TITONHO) os meus pêsames pela sua perda.


TITONHO:

Muito obrigado, minha senhora.


JJMOURARIA:

(voz comovida) TITONHO… permita-me que me avizinhe nesse sentido pesaroso e abrevie desde já os meus enlutados pêsames… (abraça o TITONHO) Seja forte, kota… por entre as brumas da dor, o sol da vida brilhará… seja forte… Tenho dito e fim de citação!




[...]



COZINHA DA FATÚ. FATÚ LIGA O RÁDIO. RDP-ÁFRICA. FATÚ COZINHA ALGO, CHORAMINGANDO.


LOCUTOR:

...é grande a expectativa e está tudo a postos, na Alemanha, em Portugal e em Angola, a comunidade de língua portuguesa tem a atenção virada para o jogo desta noite em que a selecção das quinas defronta os "palancas negras" neste que é o primeiro jogo que a selecção angolana faz num campeonato mundial... (musica) em ambos os países as ruas estão cheias de écrans gigantes e anunciam-se grandes festas após o fim do jogo, a RDP-AFRICA tem em linha um ouvinte que nos vai falar um pouco sobre este derby da lusofonia... Alô? Está-me a ouvir?


ENTREVISTADO 1:

(barulho de gritarias) sim, tou na escuta, mo general, lança aí kota Galeano.


LOCUTOR:

(sorrindo) não, não é o Galeano que está a falar, é o Trinca-Espinhas... Oiça, amigo, como é que está a ver o jogo de hoje?


ENTREVISTADO 1:

(com sotaque angolano, no meio de gritaria) não... (sério) ainda não tou a ver, o jogo é só mais logo, mas epá, tamos já a lucrar, eu aqui to preparado pro que der e vier, não há pruque é só perder ou só ganhar, na minha casa quem vai ganhar é a Superbock num sabor disfarçado de Nocal...


LOCUTOR:

Mas você vai torcer por quem?


ENTREVISTADO 1:

Vou torcer por quem? E há dúvidas? Tou do lado de Angola, evidentemente, mas tou no lucro, já me abasteci para qualquer resultado, se Angola ganhar vou beber male pra festejar, se Angola perder, vou beber male, para se alegrar...


LOCUTOR:

Obrigado, ouvinte... Junto do parque das nações, uma enorme multidão já ocupou os seu lugares, e há lugar para a festa com direito a sardinhas e muito vinho tinto... A minha colega Fernanda Almeida está no terreno e dá-nos conta da situação...


HÁ MUITO RUÍDO, E PARECE QUE FERNANDA AINDA NÃO ESTÁ NO AR. MAS ESTÁ. O LOCUTOR INSISTE.


LOCUTOR:

Fernanda Almeida estás connosco?


RUÍDOS, MAS DÁ PARA ENTENDER O QUE ELA VAI DIZER.


FERNANDA ALMEIDA:

Alô estúdio?... Alô? Não oiço nada, acho que tamos sem sinal... Epá que coisa... Tu viste-me aquele estúpido completamente bêbado que me entornou um garrafão de vinho...? (ruído)


LOCUTOR:

(rindo) Fernanda Almeida, estamos com sinal, sim, estamos em linha directa com todos os países de Língua Portuguesa, tens outros comentários além do vinho tinto já derramado?


FERNANDA ALMEIDA:

(sorrindo, embaraçada) Bom... Deixa-me desejar as boas tardes a todos os ouvintes, uma boa tarde para ti Trinca-Espinhas, aqui na "Expo" é de facto uma espécie de loucura total, há gente de todas as cores, t-shirts de todas as cores, e bandeiras de todas as cores, qualquer que seja o resultado deste jogo haverá aqui gente para celebrar... (pausa) o sr, diga-me por favor, como é que vai ser o jogo de hoje?


ENTREVISTADO 2:

(com sotaque português) Tá visto, isto tá visto, pá... Os angolanos são muito nossos amigos, pá, mas agora é hora da verdade, pá... Eles dizem que nós somos os “tugas”, pá, mas agora é que as "pacaças negras" vão ver o que é enfrentar os campeões europeus...


FERNANDA ALMEIDA:

Desculpe, a selecção angolana é a selecção das “palancas negras”...


ENTREVISTADO 2:

É palanca, é pacaça vai tudo ser varrido... Mas tão a brincar connosco ó quê? Eles “hádem” cá vir, “hádem”... Eles é Akuá, eles é Mantorras, mas Portugal é Figo, é Ronaldinho, é Maniche, eles não se esqueçam que vão enfrentar os campeões da Europa!


LOCUTOR:

(interrompendo) Fernanda, desculpa, pergunta aí a esse amigo quando é que Portugal foi campeão da Europa?


FERNANDA ALMEIDA:

O meu colega está a perguntar do estúdio, quando é que Portugal foi campeão da Europa?


ENTREVISTADO 2:

Atão não foi? Em 2004...?


FERNANDA ALMEIDA:

Mas em 2004... Portugal perdeu por um-zero, com a Grécia.


ENTREVISTADO 2:

Ó filha, a gente perdemos nos golos, mas moralmente fomos campeões... (ouve-se muita gritaria)...


FERNANDA ALMEIDA:

Bom, é como se vê, melhor dizendo, como se ouve, há muita alegria aqui, muitas sandes, muito vinho e muito calor também, está tudo preparado para que será certamente uma grande festa nesta noite do grande derby entre Angola e (...).


ALGUÉM, NA CASA DE MÁRIO ROMBO, DESLIGA O RÁDIO ABRUPTAMENTE.

INTERIOR DO APARTAMENTO DE MÁRIO ROMBO.


MÁRIO ROMBO:

(fala baixo com a esposa. Estão na cozinha) Ó NADINE, deixa-te de brincadeira e de revira-voltas... Interrogaste a miúda ou não?


NADINE:

Ó Marito, filho, mas qual interrogar...


MÁRIO ROMBO:

Quero saber a verdade, daqui a bocado o moço está a chegar e nem sei bem o que dizer.


NADINE:

Mas nem devias ter nada que dizer, nem que falar, acho esta conversa toda uma palhaçada, sinceramente…


MÁRIO ROMBO:

Mas, ó filha, tu estás a brincar ou andaste a chupar só porque hoje é dia de futebol?


NADINE:

Ó Mário, não sejas parvo, andei a chupar…! Acho mesmo uma parvoíce esta coisa de quererem interrogar os miúdos.


MÁRIO ROMBO:

Parvoíce? Mas tu vives em que planeta? Então tu não me disseste que a nossa filha namora não-se-sabe-com-quem…, um bom palerma que anda aí todo o dia a fazer não-se-sabe-o-quê…


NADINE:

Disse-te que ela me contou que tem um namorado, e que esse namoro, já tem algum tempo…, mas acho normal. Não te lembras das nossas aventuras em Maputo, antigamente…





.....




NOTA: o texto “O mortos, os vivos e o peixe-frito” foi apresentado pela primeira vez, via Rádio (RDP África), durante o África Festival 2006 (Portugal). | Foi publicado em livro, pela primeira vez, no Brasil, pelo Grupo de Teatro Harém (Teresina, Piauí).