O que mais me surpreendeu foi a paixão e o calor que impregnavam a melodia. Não sabia que nome dar-lhe, e ainda hoje não sei; ou melhor, não consegui compreender se se tratava unicamente da voz ou de alguma outra coisa mais importante, que parte da alma de uma pessoa, algo capaz de despertar nos outros a mesma emoção, e convocar os pensamentos mais recônditos.


tchinguiz aitmatov, djamila









capítulo I



A chegada

Essa viagem fazia-se muito cedo pela manhã, como acontece muitas vezes em África, cinco horas, cinco e meia…, e fiquei só.


[Mário Pinto de Andrade, Uma entrevista]



Chegou em Outubro, ao mesmo tempo que as chuvas compridas e silenciosas daquela aldeia. Os cabelos caíam-lhe pelos lados magros da cara, a roupa estava totalmente ensopada e pesada, os olhos mal se abriam de tanto espanto: era uma chuva tão molhadora como qualquer outra, mas sem o dom natural de fazer barulho ao cair. Acreditou estar no meio de um intenso nevoeiro, e abriu a boca. Provou a água, a sua realidade molhada, e sentou-se à porta da igreja. Nunca tinha vivido uma chuva assim.

Pousou o saco nas escadas. Olhou, ainda com esse olhar molhado, as pombas que circundavam a igreja. Avoavam à volta dela, aterravam nas janelas e voltavam ao avoo. Só elas faziam barulho; só se ouvia o barulho delas. Mais ao longe passeava uma récua de burros. É verdade, burros aglomerados: cinzentos, gordos, felizes e passeantes.

Entrou na igreja com um passo miúdo, sem fazer barulho. Era de manhãzinha e já tinha acontecido a primeira missa dessa manhã. Respirou o ar que lá estava, sentiu uma delicada religiosidade penetrar-lhe os pulmões e o coração. A beleza da arquitectura, a luz filtrada pelos vitrais, a manhã e o momento, a ausência do Padre, fizeram-no começar o assobio. Descobriu, ao fim da primeira música, que se tratava de um dos melhores sítios do mundo para assobiar melodias.

Num assobio tímido, fino, mas ecoado por todo o interior da pequena igreja, confirmou que a propagação do som era influenciada pela direcção para onde assobiasse, e detectou imediatamente sete corredores de assobio, cada qual com seu efeito distinto. Como ninguém aparecesse ou lhe dissesse algo, prosseguiu nos seus testes: um pouco mais alto, com belas trepidações no som, entoou uma melodia mais exaltada, digna, por si só, daquele espaço tão acolhedor quanto propício às musicalidades assobiadas. O som circulava como uma entidade autónoma cujos tentáculos precisassem de exercer um sensitivo reconhecimento do terreno. 

Os pombos pararam nas enormes janelas, do lado de fora. Eram tantos que as suas sombras gordas, projectadas para o interior da igreja, escureceram as paredes e os santos. Parados, inertes, quietos e silenciosos, pareciam apenas escutar a melodia que, na grandiosidade do eco, se exaltava. À porta assomou o Padre, que não detectou a presença responsável por aquele som paradisíaco.

A manhã era, então, um misto de variadíssimas densidades, fosse a presença dos pássaros quietos, fosse um pressentimento mundano, fosse o manancial de pequenos brilhos que acompanhava aquela chuva outonal. A música, em assobio simples, recriava um novo universo dentro da paróquia e todos os corações da assistência – padre, pombos, andorinhas, o mundo! –, revestiam-se de uma nova coloração carnavalesca: uma interna celebração.

Sentado no último banco da enorme fileira de bancos, o Padre não limpava as lágrimas; os pombos não acordavam; o homem não parava de assobiar. Mexia-se lentamente, direccionava o assobio para o sétimo corredor de som e, numa exaltação última, terminou a melodia.

O Padre, sentado, viu-o finalmente. Limpando as lágrimas, murmurou:

– Abençoado sejas, meu filho!




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capítulo II



A aldeia: burros e pessoas

O canto dos pássaros altera a música da Primavera

a queda das flores perfuma a luz da tarde.


[Zhang Kejiu, Cinquenta Xiaoling]



Para além dos pombos, de algumas andorinhas e do Padre, mais alguém tinha ouvido aquele assobiar harmonioso e cativador. O boato espalhou-se pela aldeia: uma voz do outro mundo assobiava melodias em pleno interior da igreja. Pela descrição, o som era «uma espécie de música sagrada, o mais puro latim dos anjos; quem sabe mesmo, um murmúrio de Deus!».

Ao entardecer, os restos de Sol iluminavam a aldeia na sua pequenez. Tratava-se de um conjunto de casas, marcado aqui e ali pelas saliências da igreja e de um armazém que já não pertencia a ninguém. As casas, estavam, contudo, afastadas umas das outras, formando uma espécie de caminho torto que, duas ou três milhas depois, ia dar a um lago imenso. Era um local dotado de tal pacatez que não era raro pela manhã ou pela tardinha chegarem à aldeia, aos quartos, às cozinhas, aos quintais, aos tímpanos e veias do coração, os ecos das pequenas ondinhas do lago.

Por toda a parte havia burros. Passeavam-se à vontade e ninguém lhes fazia mal. A par dos burros, ao fim da tarde a aldeia era invadida por uma enorme quantidade de pombos e andorinhas que ninguém percebia de onde vinham. Ou ao que vinham. Os pombos, já à noitinha, colavam-se à igreja e muitos deles conseguiam infiltrar-se no seu interior antes do fechar das portas. Calados e quietos, dormitavam a noite toda. Era lindo vê-los de manhã a sair em debandada, corridos pelos berros baixos do Padre.

Era comum chover mas, em Outubro – quem pode esquecer as chuvas de Outubro? – caía aquela chuva perturbadoramente silenciosa. Que era tão nebulosa que ficava bela; que, se não molhasse, ninguém acreditaria tratar-se de uma chuva; que era tão lenta que dava para acompanhar com os olhos o seu cair. Aquilo a que os aldeões chamavam «as chuvas de Outubro», era o cúmulo da mansidão daquele viver. Os olhos quase descaíam em choro mirando o sol subdividindo-se, ao fim da tarde, em cada gota dessa precipitação lentadinosa, faz conta, o astro maior se fosse derretendo todos os dias um poucochinho mais.

Havia mais pessoas do que aquelas que se julgava. De dois em dois anos, quando se dava a «festa do burro», é que se notava que não eram tão poucas assim. Mas, na normalidade do dia a dia, coexistia pouca gente: só a suficiente e a bastante.

KaLua, homem de desequilibrada memória, amigo dos seus amigos, gostava de assistir às missas, mas não parava quieto. Por vezes interrompia o Padre, pregando, não coisas sem sentido, mas descontextualizadas. Andava sempre acompanhado de rolos de papel higiénico, e gostava de fazer as necessidades ao ar livre: «gosto muito de cagar no mato...», explicava, se fosse caso disso.

Nessa manhã, passou pela igreja.


– Bom dia, Padre! – cumprimentou o Padre que estava à porta.

– Bom dia, KaLua. Já acordado?

– Pois, pois, agora disfarce...! – disse KaLua com ar irónico.

– Como assim? – sorriu o Padre.

– Pensa que não o ouvi? – esticou bem a orelha.

– Não me ouviste quando?

– Hoje pela manhã... Com que então agora deu para assobiar na sua própria igreja... – assobiou mal e porcamente KaLua.

– Ahn... hoje de manhã... Mas não era eu – olhou o Padre para o interior da igreja.

– Então? Era o Nosso Senhor? Eu bem o ouvi, que eu estava a cagar ali atrás da sacristia. E olhe que não era nada baixo o som...

– A sério, KaLua, não era eu. Temos uma pessoa nova cá na aldeia! – disse-lhe o Padre com ar sério.

– Um homem?

– Sim! – respondeu o Padre.

– E ele assobia...? – esticou os lábios e falou mais baixo KaLua.

– Se assobia! Encanta...

– Pois, eu estava a brincar... – sorriu KaLua.

– A brincar?

– Sim, quando disse que era o senhor a assobiar. Aquilo estava bom demais para ser assobiado pelo senhor... – sorriu e desandou KaLua.


A tarde passou despercebida. O Sol, na sua eterna mania, pôs-se lá no seu longínquo horizonte. Antes disso, porém, reflectiu os seus mil brilhos na água calma do lago, no seu tapete espelhado, avermelhadamente liso. Nas últimas gotas de luz, um vulto via-se ao longe, agachado sobre a berma do lago.

        Pausativo, o Padre pensou no alto da torre: «deve ser Dissoxi...».




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o assobiador [ novela ]       

 

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