As visitações de Ondjaki


Para uns a literatura já não é arte – é religião. A literatura é o território sagrado onde se inventa um chão e nos sentámos com os deuses. O lugar onde, também nós, somos deuses. No momento dessa relação, estamos fundando um tempo fora do tempo. E nos religamos com o universo. É isso que torna num momento divino esse pequeno delírio que é o acto de inventar.


Este jovem, este Ondjaki, experimentou muito cedo essa embriaguez. Bebeu dessa poção e agora se tornou em estório-dependente. Se tivesse que ser punido teria que responder não apenas pelo consumo mas pela produção e distribuição dessa droga.


Esta dependência da fabulação mergulha sempre na infância. Esse desejo de escrever não na página mas na própria voz – isso é vício que se retorceu em pequeno. E se reforçou num mundo cheio de oralidade. Felizmente, Ondjaki não se lavou dessa doença. Porque o que ele faz não é o simples deitar de uma história na página do livro. Mais do que isso: ele cria uma história para a nossa própria vida. Essa nossa vida que é a única e milacurosa fonte de acontecência. Se existe viagem é esta: percorrer as diferentes fabulações de nós mesmos, contar essas maravilhações aos outros. E confessar, sem vergonha pública: olhe, eu estou sendo este. Mas já fui uns que morreram. Quem sabe serei quem, depois deste mim?


Este é o motivo de quem escreve como e com Ondjaki – desengaiolar sentimentos. E descobrir que todos voam, não havendo pequenos nem grandes. Essa visitação aos muitos que somos, às múltiplas dimensões da nossa existência: é esta a razão de ler estes Momentos de Aqui. 



Mia Couto

(no prefácio ao livro)


“há coisas para dizer que o tempo não perturba. (...) coisas que eu diria para entender mais tarde. (...) são coisas que eu trazia de outra idade para me achar agora a repeti-las (...).”


ruy duarte de carvalho, HÁBITO DA TERRA



...

No iníco, era uma mania escondida. Escrever era só um porto para encostar minhas internas comichões. Numa manhã, apanhei-me a querer esvoaçar sentimentos, como direi?, desengaiolar-lhes. Depois sim, vieram as estórias.

Eram tantíssimas. Eu era uma própria estória em movimento. Acusavam-me: você inventa...! Minha desatenção no escutar desembocava em meus aumentos no contar. Minha avó sorria, ela me estava a espreitar essa mania. E eu mesmo gostava de fazer colagens das estórias dos mais velhos – meu barro prematuro.

Então pus novas máscaras nas mentirinhas e nas invenções espontâneas e atrevi-me a escrevinhar. Desatei – com o coração – a admirar grandes artífices das letras. Surpreendi-me, intimidei-me: essas pessoas já cutucaram toda beleza do mundo..., eu sou o mais atrasado!

Mas nesse sítio mágico – a Humanidade, encontrei alguns simples mestres literários. Um me disse abruptamente: vá masé buscar seus próprios universos, não olhe de lado. Cada búzio, cada concha!

Aceitei-me. Minhas memórias, meus laços, minhas lágrimas. Li outros como quem cumprimenta mais velhos; e mesmo sem conhecer, entrei em conversações com alguns deles. Tudo numa contínua estreia da descoberta: a literatura me era já muito sagrada.

Estes momentos de aqui são tão «eu» que quase me encabula espreitar-lhes. Acompiladas salteadamente no tempo, estas estórias é que me sentenciaram: nós somos seu primeiro livro. Você, inversamente, é que renasceu nas nossas costas. Nunca mais deixámos de nos boleiar mutuamente, estóriasieu.

E – quando senti as palavras do Eduardo White acenderem-me uma deliciosa comichão, entrei em tréguas comigo mesmo: dentro tens alguém que te procura e que acordado te faz sonhar. Dentro, é no coração. Afinal, murmurei-me, esse «momento» chamado coração é o «aqui» mais próximo de cada um.

Assim me confesso.



Ondjaki


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momentos de aqui   [ contos ]       

 

O Padre, o Mar e o Faroleiro


O mar cheirava a uma vela inchada pelo vento,

onde a água, o sal e um sol frio se uniam.

Tinha um odor simplório, o mar!


[Patrick Süskind, O perfume]



O Padre estava preocupado. Por um lado eram as beatas que se queixavam, em plena confissão, do ladrão de galinhas; por outro, era a mãe do faroleiro que de dois em dois dias ia propositadamente à missa para o poder abordar no fim desta. Falava então da solidão do filho. Da sua estranha comodidade num lugar repleto de mau ambiente e sombras duvidosas. De cada vez que falasse ao Padre, implorava-lhe que fosse ver o faroleiro, seu filho, e que o aconselhasse a levar uma vida mais sã, menos só, enfim, a vida que as pessoas normais levavam e que ela não via no seu filho.

Ao fim de três semanas, irritado por não resolver nenhuma das questões pendentes e como vendo que elas não se dissipavam por si mesmas, resolveu começar pela questão do faroleiro:

- Mas Dona Odete - começou o Padre como se esta fosse a primeira vez que a ouvia falar de tal assunto. - O seu filho leva uma vida assim tão só?

- É como lhe digo Padre. Não sai daquele maldito farol nem para ir ao circo. Vive lá trancado sem que o trabalho lhe ocupe o tempo todo. E o pior, senhor Padre – continuou – é que não parece nada insatisfeito...

- Então como sabe a senhora que ele está só, ou infeliz?

- Oh senhor Padre... Isso são coisas que uma mãe sente. Aliás, distraído como ele é, se não for eu a velar pelo seu bem estar...

- Então não foi ele que se queixou?

- Mas é aí que está o problema, Padre. Ele nem sequer se queixa!

- Bom - tentou terminar o Padre. - Vou ver o quê que se pode fazer...

- Mas Padre, o senhor vai tratar disso pessoalmente, não vai?

- Mas tratar do quê, Dona Odete?

- Do meu filho...

- Não há nada a tratar com o seu filho, mas se a senhora fica mais descansada, eu falo com ele um dia destes.

- Ai muito obrigada - concluiu a senhora mais satisfeita.

Enquanto lanchava, o Padre pensava de maneira breve naquele assunto que não lhe parecia sério. Lanchava, como sempre, no pátio, na companhia das moscas e dos cães que, por respeito, não o incomodavam. Era assim que resolvia os assuntos: devagar e a olhar o céu. Aliás, só na hora do lanche se dedicava por inteiro aos assuntos da Aldeia. A maior parte do tempo, ocupava-o com as missas, com as limpezas, com a horta e com as músicas que cantarolava. Acolhia com carinho a sua preguiça e não procurava repeli-la. De resto era tarde para fazê-lo.

Já à noitinha dirigiu-se para o Centro, local recreativo onde se ouvia a telefonia, se jogava cartas amistosamente e se falava mal ou bem de quem se quisesse falar.

- Boa noite Padre - cumprimentou Belito. - Veio para uma partidinha?

- Não, não sei bem ao que vim...

- Ahn... compreendo - respondeu Belito como tantas vezes fazia já por hábito.

- Tem visto Adelaide Mortinho? - perguntou o Padre.

- Quem, Padre? Desculpe, não ouvi.

- Adelaide Mortinho, o faroleiro. Ele tem aparecido?

- Ah, o Mortinho... Não, não o tenho visto.

- Mas ele costuma cá vir, não é?

- Ultimamente já não. Há coisa de dois meses vinha às terças e quintas para ouvir os jogos, agora já nem isso. No outro dia vi-o no cinema. De resto não o tenho visto...

- Pois, ninguém o tem visto - continuou o Padre olhando para Belito como que puxando mais alguma coisa.

- Bem, nas últimas semanas eu só o tenho visto no cinema, isto é, uma vez por semana. De resto, só se perguntar ao cego Jeremias...

- Está bem - disse o Padre. - É que a mãe dele anda preocupada. Enfim, sabe como é...

- Oh Padre, a Dona Odete anda preocupada desde a última guerra e já lá vão não sei quantos anos...

- Pois, mas também, desde essa guerra que ela não me parecia tão preocupada...

Despediu-se de todos e foi andando para lado nenhum. Talvez esperando encontrar o cego Jeremias ou o próprio Adelaide Mortinho. Mas seria difícil àquela hora encontrar qualquer um deles. Provavelmente Jeremias estaria longe a jantar e Mortinho não viria à Aldeia visto não ser dia de cinema.

Sentou-se então na praça e pôs-se a pensar no nome de Adelaide Mortinho. Sabia aquela história. É que Dona Odete Mortinho, que se dizia ser estéril, fez a promessa de chamar Adelaide ao filho que tivesse, por razões que ela até hoje omite, está claro. E assim foi. Teve o seu primeiro e último filho, apesar das promessas mais incríveis que se seguiram ao nascimento de Adelaide.

O Padre pensou que vendo as coisas com olhos atentos, talvez não fosse tão estranho o comportamento de Adelaide Mortinho. Na realidade, os Mortinho eram uma família de quem só se sabia praticamente o nome. Tirando as coisas que se viam e ouviam, ninguém conhecia aquela família na sua verdadeira intimidade.

Lá para as nove, o sono tentou aproximar-se. Para afastá-lo, o Padre levantou-se e forçou o corpo a mais uma curta caminhada até à igreja. Mas a caminhada não o acordou e os últimos movimentos de antes de se deitar foram já executados pelo seu apurado costume de tantos anos. Adormeceu sem rezar, como fazia tantas vezes.

Matabichou minutos depois de acordar e pôs-se então a rezar. Acreditava que as intenções contavam quase tanto como as acções, por isso não se martirizava com os seus lapsos, os seus sonos, ou as suas faltas enquanto Padre.

Logo depois da missa, a Dona Odete voltou a abordá-lo:

- Padre, já que o meu filho não vem à Aldeia, o Padre não poderá fazer-lhe uma visitinha?

- Mas Dona Odete, o farol fica a três quilómetros da Aldeia e é sempre a subir - dizia o Padre ilustrando com a mão e com a expressão facial um trajecto que lhe parecia impossível de se fazer a pé.

- Mas Padre, e se lhe aconteceu alguma coisa?

- Não, não houve nada. Todo o mundo sabe que as más notícias voam...

- E o senhor Padre não podia mandar alguém chamá-lo?

- Sob que pretexto, Dona Odete?

- Pois... não tinha pensado nisso...

- A senhora sabe perfeitamente que Mortinho não virá à Aldeia por qualquer coisa.

- E se inventarmos uma fita qualquer? Um filme que ele queira muito ver?

- "Inventarmos", Dona Odete? - exclamou o Padre.

- Sim, quer dizer, pode mandar o recado em meu nome.

- E porque mandaria eu tal recado?

- Oh Padre não me faça crer que o meu filho está lá no farol isolado...

- Mas é o que a senhora me tem dito.

- Eu?

- Pois então não é por isso que me procura? Pelo constante isolamento do seu filho?

- Oh senhor Padre - disse ela num tom mais aliviado. - Mas esse é outro isolamento.

- Ai não, Dona Odete. Isolamento é só um, e se me diz que o seu filho não está isolado, então esquecemos o assunto já aqui - disse o Padre, esforçando-se por dar ao assunto uma total falta de fundamento.

- Ai isso é que não, Padre! - disse ela retirando-se da igreja em tom pensativo. Sem se despedir, saiu apressada e o Padre percebeu que ela ia procurar um eventual mensageiro.

Arrumou sozinho, como sempre, os acessórios pobres das suas missas. Sem pressas, despiu-se e pôs de seguida o seu fato macacão e as botas de jardinagem. Foi então cuidar da horta e por meros segundos passou-lhe pela cabeça a história dos ladrões de galinhas, mas num acto de autodefesa pensou em voz alta: «um assunto de cada vez!».

Nestas distracções, esborrachou com as velhas botas um belo tomate. «Desculpa» pensou, «é que não posso pensar e ver ao mesmo tempo». Era sempre assim. Resumia os assuntos a um simplicidade extrema e encarava os acontecimentos como um plano há muito traçado pelo Senhor. Evitava chatear-se. No fundo, era uma precaução desnecessária, pois nunca se chegava a chatear.

À tarde foi ao Centro. Estava fechado e bem cheiroso. Ouviu movimentos enérgicos no interior e arriscou bater. «Quem é?», ouviu-se a voz percorrer a sala e sair pela frecha da janela principal. «S. Pedro!», disse o Padre em tom irónico. Belito abriu a porta e adoptou um ar muito bem disposto que guardava sempre intacto para as pessoas de quem gostava. «Entre, Padre, entre.»

Como as cadeiras estavam em cima das mesas o Padre encostou-se ao balcão. Deitou um olhar que nada via às coisas desarrumadas e coloridas das prateleiras, virou-se para Belito e perguntou-lhe em tom familiar:

- Sabe de alguém que vá para as bandas do farol?

- Sei sim, Padre.

- Óptimo! Vou precisar de mandar um recado.

- E é para hoje?

- Em princípio sim. Porquê? - indagou o Padre tentando perceber que obstáculo seria aquele.

- É que a pessoa que vai para essas bandas não está cá na Aldeia...

- E quem era essa pessoa?

- Era Adelaide Mortinho, o faroleiro! - respondeu Belito como se fosse a verdade mais verdadeira e evidente à face da terra.

- Ahn... - exclamou o Padre, atrapalhado. - Então deixe estar. Passe bem.

- Igualmente, Padre.

Quando saiu novamente à rua, já o sol ardente o esperava sem piedade. Acelerou o passo e prostrou-se como uma estátua em baixo do embondeiro enorme da praça. Quem o visse de longe pensaria que o Padre estava absorto nos mais profundos pensamentos. Mas não. Sem se desequilibrar, com os olhos praticamente fechados, o Padre dormia. E naquela tarde, quem diria!, até sonhava.

Foi o próprio sol que o acordou na quentura da perna esquerda. Afinal tinha calculado mal as distâncias e a sombra do embondeiro já não o protegia tão bem. No auge da sua sonolência pôs-se a caminhar em direcção ao farol. Aproveitava aquele estado para não se aperceber da distância. Da sua janela distante, Dona Odete observava-o satisfeita, vendo naquele vulto uma forte determinação que não estava lá. Noutra janela, também intrigado, estava Belito. No ponto exacto onde se interceptavam esses olhares, lá ia o Padre aproveitando-se da sua sonolência para empreender uma subida que, em estado normal, não faria nunca.

Percorreu os três quilómetros sem dificuldade e só se permitiu acordar quando esbarrou com o nariz na porta do farol. Olhou para atrás e viu lá em baixo, distante, a bela Aldeia. Depois voltou-se e olhou o Mar. Aí sim, passou-lhe o sono. Esvaziou-se a cabeça de pensamentos e encheu-se o coração de sensações. Era belo o Mar. Era verdadeiramente encantador e atraente. «Tenho de vir cá mais vezes», planeou.

Quando ia bater à porta, a sua mão inclinou-se em pleno vazio. A porta abriu-se, ou melhor, Adelaide Mortinho abriu-a.

- Padre! - exclamou com vivacidade.

- Meu filho! Posso entrar?

- Com certeza, Padre - explicou com a ajuda da mão direita pois a esquerda tinha um livro - Mas, entrar para onde, se as escadas começam já aqui?

- Então vamos subir! - afirmou o Padre com a natural coragem daqueles que com a sua idade acabavam de percorrer três quilómetros sem dificuldade.

Estupefacto, quase rejuvenescido, o Padre olhava agora o Mar por detrás da enorme janela do farol. Sem palavras, porque não as havia naquele momento, limitou-se a levantar as mãos até embater no vidro, como se fosse tocar, agarrar, consumir o Mar. Olhou então para atrás e viu Mortinho sorrindo, como se compreendesse perfeitamente aquela sensação. Deixou-se estar assim uns minutos e depois acordou:

- Mortinho, a sua mãe pediu-me que viesse falar consigo.

- Sim, eu sei Padre.

- Sabe? Como?

- Provavelmente está preocupada porque já não vou à Aldeia...

- Pois, é mais ou menos isso - disse o Padre, que ouvindo as últimas palavras de Mortinho, não conseguiu encontrar nada de estranho naquela situação.

- É simples, Padre. Só cá estou há quatro meses e tinha pouco o que fazer, por isso ainda ia à Aldeia. Mas recebi no mês passado uma boa remessa de livros que tinha requisitado. Não há filmes bons na Aldeia e tenho aqui tudo o que preciso...

- Tudo, meu filho?

- Acha que não, Padre? - perguntou Adelaide Mortinho apontando para a sala, terminando na janela inundada de Mar. - Acha que isto não é tudo?

O Padre deu então outro olhar à sala. Na sua aparente desarrumação reinava uma certa ordem. De um lado, o monte de livros. Ao centro, a secretária com botões intermináveis e luzes incompreensíveis. Do outro lado, fitas de música e mais livros. E em redor do cilindro gigante que era aquele farol, uma janela, uma varanda e o respectivo Mar.

Como que compreendendo o olhar do Padre, Adelaide Mortinho o faroleiro, dirigiu-se lentamente para uma das portas laterais que davam para a varanda. «Venha Padre.» Uma brisa fresca entrou pela sala, mas não se interessando por nada, voltou a sair. Com ela foram para a varanda o faroleiro e o Padre. Do alto do farol parecia dominar-se o Mar. Ou simplesmente, poder-se calcular e sentir o seu poder, a sua imensidão. Diante da beleza, da brisa, e levado pelas sensações que só o Mar sabe provocar, o Padre exclamou comovido: «isto pode ser tudo!»

Adelaide Mortinho ouvia o Padre mas continuava a olhar o Mar. Era um olhar diferente do do Padre: olhar fraterno mas respeitador. Tinha o seu quê de companheirismo e de servidão ao mesmo tempo. «Compreende Padre, que eu não precise de ir à Aldeia?»

Um silêncio suave serviu de resposta. O Padre não era capaz de falar. Todas as suas dúvidas, essas poucas que lhe restavam, tinham-se desvanecido. Compreendera de uma vez por todas que os homens eram meros instrumentos de um poder infinito. Que não compensava ir contra os acontecimentos mas antes saber aceitá-los. Sempre silencioso, o Padre saiu da varanda acompanhado do faroleiro. Olhava-o com ternura e brilho nos olhos. O espectáculo tinha-o marcado muito mais do que tudo aquilo que o faroleiro podia ver nos seus olhos. Sem parar de olhar o Mar, tomaram um chá e comentaram em voz alta, poesia ou textos que condiziam com aquele momento único que viviam.

Atravessaram a porta. Já lá em baixo, dirigiram-se à berma da falésia e olharam, compreensivos, encantados, um para o outro. Num tom baixo, calmo, apropriado, Adelaide Mortinho disse para o Padre: «Vá ter com a minha mãe. Ela precisa de ajuda!»

O Padre sorriu leve, levemente. Consentiu com a cabeça mas pôs o assunto na fila dos seus assuntos a serem tratados com calma. «Tudo a seu tempo», pensou. «Por agora terá de ser o caso das galinhas!»

Apertaram demorosamente as mãos e despediram-se com um olhar. Mortinho estava satisfeito por se ter feito compreender. O Padre estava encantado por ter encontrado toda aquela beleza. Naquele mesmo instante, deitou abaixo toda a sua futura preguiça e amaldiçoou sem grande convicção todos os dias que não pensou em vir ao farol.  Olhando todo aquele Mar, prometendo-se que voltaria ali mais vezes, o Padre olhou também o faroleiro e num tom simples e amistoso, disse:

- É um lugar mágico, Mortinho!

Encostando as costas, o rabo e a nuca ao seu farol, Adelaide Mortinho, o faroleiro, falou com a voz sólida uma verdade que parecia saber desde o dia do seu nascimento:

  1. -Nunca duvidei disso, Padre!



:::



Padre Inácio, o Mata Anjos



Alguns dizem:

- A alegria é maior que a tristeza.

Outros afirmam:

- Não, a tristeza é maior.


Mas eu digo-vos

que são inseparáveis.


Vêm juntas

e quando uma se senta

a sós convosco à vossa mesa

lembrai-vos que a outra

dorme na vossa cama.


[Khalil Gibran, O profeta]




Aspirantes. Freiras. Moças do coro. Catequisandas. Enfim, varria tudo o que lhe aparecia inevitavelmente pela frente. De facto, não foi por acaso que muito rapidamente o Padre Inácio ganhou (com mérito) a alcunha de Mata Anjos.

Abriu a porta que esteve fechada durante três anos. No mesmo instante em que punha o seu pé gordo no interior da Paróquia, dois quarteirões ao lado, a Avó Catarina exclamava: «Guardem as vossas filhas, as vossas netas, as vossas sobrinhas e até mesmo as vossas afilhadas. O Mata Anjos chegou!»

Sem ter um aspecto totalmente asqueroso, porque a batina impecavelmente branca não o permitia, o Padre Inácio era no entanto quase nojento. Na sua boca escorregadia, só faltavam lá bichos a habitar, pois tinha todas as condições criadas para isso. Os dentes eram de uma coloração indefinida, entre um roxo e um castanho, tingidos também pelo verde escuro e o amarelo torrado. Das suas gengivas, brotava um pequeno musgo que precisava de ser podado todos os dias. Assemelhava-se, o musgo, a um vulgar bolor, com a diferença de exalar um forte cheiro a mijo de javali. Era cruel o que se ouvia dizer da sua aparência, mas depois de vê-lo, constatava-se que não havia exagero nenhum. Todas as cores, os tons e até os cheiros, se confirmavam com a sua presença. Daí que espantasse não habitarem bichos na sua boca.

Com a sua chegada, a Paróquia de S. Francisco de Assis ganhou vida. E quanta vida! O Padre Inácio organizou sozinho, de forma brilhantemente matemática, horários compatíveis e flexíveis, para que as raparigas da Praia do Bispo tivessem sempre uma actividade para partilhar com ele. Fosse o canto, a Catequese, o curso de Ajudante de Missas, ou até mesmo, imagine-se!, o basquetebol. À medida que o tempo e as aulas iam decorrendo, nas mais diversas actividades, o Padre foi desenvolvendo inovações. Nas aulas de canto, por exemplo, quando carecia de um agudo, beliscava energicamente o rabo das moças. Se fosse o caso de uma nota grave, em vez de beliscar, limitava-se a apalpar de mansinho. Os códigos eram respeitados e, com esses códigos, o Padre Inácio passou a ensinar uma série de actividades até então desconhecidas para as raparigas.

Com o passar dos primeiros meses, o Padre notou que duas pessoas na Praia do Bispo não vinham às suas missas: a Avó Catarina e o Sr. Tuarles. Indagou sobre as razões de tais ausências contínuas e nada conseguiu apurar. Da mesma maneira que ninguém contava que gritinhos eram aqueles que se ouviam na sacristia em plenas explicações extraordinárias, também ninguém contava ao Padre as antigas questões daquele bairro.

Ao contrário do que ele pensava, era tudo muito simples. A Avó Catarina recusava-se sempre que a convidavam para a missa,  declamando um complicado discurso inacessível à compreensão até daqueles que lhe eram mais chegados. Entre palavras demasiadamente cuspidas e outras engolidas, percebia-se somente o termo Mata Anjos. Como se ninguém percebesse, nem tão pouco lhe ligasse, ela era simplesmente abandonada ao silêncio do enorme casarão, onde tentava a todo custo resistir aos violentos assédios da morte. Quanto ao Sr. Tuarles, a sua atracção pelo seu próprio bar e pelo cheirinho da cerveja morna, era muito mais forte do que o vago interesse, meramente social, de aparecer na missa.

Sete meses depois da chegada do Padre Inácio, três das suas estudantes internas apareceram grávidas. Duas freiras francesas tinham voltado para o seu país pela mesma razão. Nunca passou pela cabeça de ninguém, excepto da Avó Catarina, pensar sequer na ajuda do Padre nestes casos. Só que começou a ser estranha a sua atitude: não perguntava nada, não se preocupava em indagar sobre a paternidade das futuras crianças e, pior ainda, brincava com as grávidas como se estivesse feliz pelo seu estado de graça. À tardinha, quando passeava com o seu enorme "grupo de jovens", era visto a brincar com as grávidas em alegres e espontâneos movimentos que, na brincadeira, dificultava, como se fosse ele mesmo, uma das suas grávidas!

O Padre Inácio criou ainda um torneio de basquetebol na Kinanga City, bairro que ficava no interior da Praia do Bispo. Ao contrário do que se esperava, os seus jogos femininos tiveram enorme adesão. Inventou, como em tantas outras modalidades, novas técnicas de jogo e de conduta em campo. Nos lançamentos livres, ensinou-as a mexer o rabo e o peito antes de efectuarem o lançamento. «É uma questão de concentração» explicava, se fosse caso disso. Mandou também vir do estrangeiro equipamento justo, em licra, para «facilitar a movimentação das suas atletas» em campo.

Com o passar do tempo, cerca de ano e meio depois de ter chegado, as grávidas sucediam-se. Algumas, as que tentavam ou chegavam de alguma maneira a dizer alguma coisa, eram mandadas de volta para o interior, ou para o estrangeiro, se fosse a sua origem. Mais gordo do que nunca, de batina branca e sapatos ligeiramente sujos e tortos, passou a fazer somente as missas do fim-de-semana. Apalpava atletas no pátio, em pleno treino. Procurava ficar a sós com cada uma das raparigas do coro que não eram escolhidas pela voz, mas pelas saliências do corpo, para que com a desculpa de as tornar melhores cantoras as apalpasse ou beliscasse à sua vontade. Não tocava nas moças da Praia do Bispo porque soubera entretanto que devido aos avisos da Avó Catarina, os pais delas estavam alerta. No auge da sua liberdade, no auge também das suas práticas imorais e constantes, cometeu o erro de não resistir à filha do Sr. Tuarles: a Paurlete. Sim, a mesma Paurlete que tinha o nariz do tamanho do seu dedo grande do pé!

A primeira reacção do Sr. Tuarles, foi pegar na AK47 e dirigir-se para a porta do bar, onde sabia que amigos seus não o deixariam sair. Foi o que fez. E como previa, não o deixaram sair. No fundo, ele próprio pensava que não seria capaz de dar um tiro ao Padre Inácio. Embora soubesse dos boatos, das histórias, e conhecesse até dois dos seus filhos sem pai. Com a cara amarela, quase a passar para um vermelho vivo, dir-se-ia portanto que a verdadeira tonalidade era o laranja, o Sr. Tuarles agitava a arma para onde se estivesse a mover, o que provocou o pânico geral nos seus amigos. No paroxismo da sua fúria, mais por não saber exactamente o que se tinha passado, do que propriamente pela situação em si, apontou a arma para o cimo da igreja e deu dois tiros. As cápsulas saltaram para dentro do seu copo de cerveja, o que ainda o irritou mais. «Esta merda está encravada!», disse ainda, no fim dos tiros.

Os amigos apressaram-se a tirar-lhe a arma. Já estava mais calmo. Fez sinal à mulher para ir guardar a arma. Enquanto tentavam acalmá-lo um pouco mais, o Sr. Tuarles repetia insistentemente: «Onde é que se meteu essa miúda?»

Ouvindo os tiros ricochetear na cruz de metal, a Avó Catarina teve a certeza que o caldo se entornara de uma vez por todas. Rindo-se baixinho, algures entre uma escada e outra, sempre metida na pressa de fechar e abrir janelas, esfregou as mãos satisfeita pela chegada do "dia" do Padre. «Madalena...» gritou com os pulmões antigos de muitas músicas, «vai à igreja ver o que se passa e depois vem a correr contar-me...»

Mas a Madalena, pela primeira vez na história da Praia do Bispo, não ouviu a Avó Catarina. O que se passou na igreja naquela tarde, as conversas que se deram entre o Sr. Tuarles e a Paurlete, sua filha, e tudo o que à tardinha se passou em plena rua da pequena marginal, foram acontecimentos inesquecíveis para quem assistiu e aos quais a Avó Catarina nunca teve acesso visual. Contaram-lhe no dia seguinte, enquanto ela amaldiçoava a evadida Madalena. «Nunca me perdoarei...» dizia para si própria, quase chorando. «Podia ter visto com os próprios olhos a desgraça do Mata Anjos!»

Referia-se ao Padre Inácio, evidentemente. Aliás, a partir daquele dia, foi assim que todo o mundo passou a chamá-lo. Como se nunca tivessem ouvido a expressão, porque agora era mesmo uma simples e esquecida expressão, "Padre Inácio".

Quando a Paurlete chegou finalmente a casa, entrou pela porta dos fundos da casa da vizinha, saltou o muro de três metros aleijando-se no tornozelo esquerdo, tropeçou nas galinhas preguiçosas que passeavam pela capoeira sem rede, e fez um estrondo enorme quando deixou cair, ainda na sequência da queda, um montão de latas velhas que o Sr. Tuarles coleccionava. Viu assim frustrada a sua missão de entrar em casa sem ser notada. Pegando novamente na arma, lá veio o pai da Paurlete, o Sr. Tuarles, buscá-la, como sendo ela a principal criminosa da história que ele ainda nem conhecia bem. «Vamos conversar lá em cima» disse-lhe, apontando o quarto com o cano da arma. «Tenho a impressão que o dia hoje ainda vai acabar mal...»

Num quarto sucumbido àquela escuridão relativa da penumbra da tarde, a Paurlete sentou-se na cadeira velha que lhe pertencia há muitos anos. O pai sentou-se na cama, acariciando nervosamente a arma como se fosse precisar dela a qualquer momento, quanto mais não fosse para dar um tiro a si próprio.


- Paurlete - começou - Não mintas. Diz só bem o quê que se passou com o Padre...

- Pai, num foi nada...

- Eu disse para não mentires! - continuou com a voz tão baixa que até metia medo. - Conta bem a história, e não duvides que hoje um de nós ainda vai apanhar um tiro. Ou sou eu, que sou estúpido e te deixo ir à igreja daquele matador de anjos, ou és tu porque fizeste o que não devias, ou é ele por te ter obrigado a fazer o que não devias. Mas digo-te - continuou exactamente com a mesma voz - Tenho que dar um tiro a alguém!

- Ai Pai... - começou a Paurlete num choro que não o comoveu. - Ele me obrigou...

- Ele te obrigou?!? Te obrigou como?

- O Pai sabe mesmo... me disse «vamos na sacristia para te ensinar uma coisa...»

- "Ensinar uma coisa...?" - imitou o Sr. Tuarles dirigindo-se para a janela e olhando a igreja com raiva, como se ela fosse o Padre Inácio. - E o quê que ele te ensinou?

- Aquilo mesmo...

- Então e tu num sabias dar-lhe um bico? Uma chapada? Porquê que não gritaste?

- Eu num sabia, Pai. Eu até pensei... - interrompeu, chorosa. - ...que ele estava à procura d´alguma coisa...

- Ah pois, e ele ´tava mesmo! - gesticulou com a arma, irrequieto. - E pelos vistos, encontrou...


Do lado de fora, a mãe da Paurlete, mulher do Sr. Tuarles, ouviu o fim da conversa sem perceber nada. Naquele tom irritado, o Sr. Tuarles baixou ainda mais o tom de voz, e entre pequenos sons desarticulados e nervosos, ouvia-se o eco de chapadas discretas, brutas, intencionalmente fortes. Chorou do lado de fora a sorte da filha, não entrando no quarto, pois arriscava-se também ela a levar um tiro.

Enquanto a Avó Catarina estranhava a demora da Madalena, simplesmente porque esta nem sequer tinha ido onde ela pretendia, sendo assim bastante complicado voltar de lá, o Sr. Tuarles certificou-se de que a arma não encravava mais. Atravessou a rua sem que ninguém pudesse impedi-lo e, acompanhado por uma sombra de trinta e tal pessoas, entrou na igreja com os seus passos barulhentos de botas repletas de poeira.

Era um espectáculo curioso de ser assistido. Um homem quarentão de corpo largo, com uma AK47 no braço, rodeado de todo o esplendor daquela igreja, era no mínimo, um contraste fabuloso. À sua frente, Jesus Cristo repousava, passivo, na cruz. E olhava-o como olhava todo o mundo que se punha à frente dele. O Sr. Tuarles, consciente desse olhar, voltou-se para trás, apontando a arma para a multidão que o seguia. Assustados, desataram a correr. Da poeira recentemente levantada, um pequeno vulto subsistia. Débil, embora não muito magro, o corpo era da sua impotente esposa. Impotente em dominá-lo em situações como esta. Mas vendo-o tão descontrolado, de arma na mão em plena igreja, venceu os seus medos e deixou-se estar ali, a olhar para ele, como o próprio Jesus Cristo. «Tuarles...», disse com a voz seguramente trémula, «pousa essa arma».

Como se a ouvisse pela primeira vez na sua vida, sentou-se no banco mais próximo encarando novamente a cruz e o respectivo Jesus. Ao seu lado, repousava a arma, brilhante, iminentemente pronta. Sem ser convidada, ela veio sentar-se ao seu lado, pondo a arma no colo, sentindo pela primeira vez o peso que o seu marido suportava tão bem. Era como se o tempo tivesse parado ali, naquele momento, para que eles pudessem conversar um bocadinho.


- Tuarles, vamos para casa. Mais logo falas com o Padre...

- Sabes Isabel, não é a questão da virgindade dela. Hoje em dia já ninguém casa virgem. Eu até suportava bem a situação se fosse com um rapaz qualquer. Mas um Padre? Ainda por cima, este Padre?

- Então - tentou ela -, vai ter com ele, mas deixa-me levar a arma...

- Aguentas com ela? - perguntou ele, aceitando a ideia.

- Claro.


Quando ela se dirigia para o corredor formado pela ausência de cadeiras, sentiu a dúvida cair sobre si. Se por um lado não era bom deixá-lo armado, por outro, a arma representava a possível segurança do Padre. No fundo, ele não seria capaz de lhe dar um tiro. E sem a arma? O que faria ele ao Padre sem a arma?

Uma valente carga de porrada.

No seu sorriso verde, enfeitado pelo musgo que àquela hora da tarde já tinha crescido muito, lá estava o Padre Inácio na sua pequena horta, apanhando tomates verdes e alfaces tristes. Quando viu o Sr. Tuarles, e quando viu igualmente que ele não vinha em missão de paz, nem tão pouco numa outra missão qualquer que não fosse especificamente a de guerra, engoliu então o seu sorriso bolorento. Analisou rapidamente as hipóteses de fuga e tentou ainda correr. Foi a sua barriga que o traiu. Foram os seus tornozelos gordos e pouco flexíveis que, com a intencional ajuda da barriga, o fizeram cair.

Esborrachou a cara num tomate podre. O tom verde da sua boca assumiu uma cor tão indefinida quanto indescritível. O medo, ou quem sabe, o pânico, tomou conta da sua boa disposição de todos os dias, e o seu instinto de sobrevivência obrigou-o a rastejar para lado nenhum. Passivo, consciente da impossibilidade daquela fuga, o Sr. Tuarles esperava que aquele espectáculo particular acabasse, para que ele começasse o espectáculo seguinte que inevitavelmente se viria a consumar.

Sem pena do Padre Inácio, até porque o momento não o permitiu, enfiou-lhe um violento pontapé na bexiga. O Padre gemeu e levantou-se. Agarrando com a mão esquerda a orelha também esquerda, do Padre Inácio, o Sr. Tuarles começou então a longa chuva de bofatadas que aplicou durante meia hora com a mão direita. Enquanto repetia o mesmo movimento, para trás e para a frente, ia levando o Padre para o exterior da igreja, onde os esperavam, como era sabido, os curiosos, os avisados, os interessados e até mesmo os surpreendidos. Ao fim de meia hora, cansado, o Sr. Tuarles viu a sua raiva diminuída. O facto de ter passado meia hora a esbofeteá-lo, e de o ter trazido para a rua, eram meros artifícios a que recorria para não ser mais violento. Era a maneira que tinha arranjado, inconscientemente, de não matar o Padre à porrada.

Devido a todos os factores que estão inerentes ao processo das bofatadas, a face direita do Padre Inácio, não só tinha mudado de cor, como de relevo. A multidão teve então o prazer de ver que, por debaixo da primeira camada de pele da bochecha, residia constantemente a pequena camada de musgo que se via no interior da sua boca. Era caso para se dizer, embora ninguém tenha dito, que a barba do Padre de todos os dias, não era barba, mas sim relva. Sendo assim fácil de concluir que o Padre Inácio não fazia a barba, mas a relva!

Dado o aspecto dorido daquela face, a raiva do Sr. Tuarles começou a ceder. Mas quando lhe largou a orelha esquerda e viu aquela face ainda tão fresca, caiu na tentação de lhe dar mais umas estaladas. No seguimento da carga de porrada, ouviram-se gritinhos de raparigas recém acordadas que vinham do interior da Paróquia. Ao senti-las rodearem o Padre, o Sr. Tuarles parou.

Elas levaram-no para dentro e o Sr. Tuarles regressou para o seu bar. Mal entrou, viu a sua mulher agarrada à AK47, como se fosse a única coisa a fazer naquele momento para impedir uma verdadeira desgraça. «Já passou» disse ele, enquanto lhe arrancava a arma das mãos para finalmente ir guardá-la. «Acho que já passou» disse no meio das escadas que davam para o quarto deles.

Foram estes os acontecimentos históricos da Praia do Bispo que a Avó Catarina só soube no dia seguinte. Estranhou que naquela noite houvesse pouco movimento na rua e até mesmo na casa da sua vizinha. Mas como era a tradição, ela não fazia perguntas. Esperava que as pessoas lhe viessem contar as coisas, e normalmente isso acontecia logo depois dos acontecimentos. Mas daquela vez, o acontecimento tinha sido de uma tal ordem que, nos delírios dessa noite, enquanto se contava a história aos que passavam em frente à igreja, todo o mundo, pela primeira vez, se esqueceu da Avó Catarina. Na verdade, ela estranhou também naquela noite a demora da Madalena. Essa moça que a servia há tantos anos e que, farta das porradas que levava sem saber bem porquê, fugiu com o seu namorado daquela época.

O Padre só teve tempo de arrumar as coisas e despedir-se da Rigorosa, uma vaca seca, ossuda e frágil, que ele mantinha há muito tempo, no intuito de engordá-la para, certamente, vir a comê-la. Mas isso nunca chegou a acontecer. No dia seguinte ao da briga, um carro preto de marca pouco conhecida veio apanhar o Padre Inácio e as suas magras malas. Soube-se então na Praia do Bispo que o Padre tinha sido impedido, pelas demasiadas evidências, de continuar a exercer o sacerdócio. Passou a ocupar o (só para ele existente) cargo de bibliotecário da Diocese. Não visitou nunca mais a Praia do Bispo, nem quis saber nunca dos inúmeros filhos que cresciam pela cidade, pelo interior e até pelo estrangeiro. Nem sequer perguntou mais pela débil Rigorosa.

Continuou, isso sim, com os seus hábitos amorosos praticados com menos frequência devido ao apertado controlo que o Bispo exercia sobre ele. Continuou também com o inevitável hábito de fazer a sua relva com todo o cuidado possível, para que não se estranhasse ver um homem com barba verde.

O interior da sua boca, no entanto, atingiu níveis de deterioração altamente inconcebíveis. Sem ele saber, no seu quartinho, à noite, bichos não identificados circulavam livremente por ali, uma vez que dormia de boca aberta e com um sono profundo que não permitia surpreender os animais. Quando alguém o via na cidade, deambulando nas suas ocupações vagas, encontrava-o com um outro aspecto. Era como se a ausência de todo aquele mundo que ele tinha criado o tivesse envelhecido de maneira drástica. Na ausência do seu "grupo de jovens", como lhes chamava, a sua boca passou a representar verdadeiramente o que ele sempre tinha sido: um tarado que, para além do prazer, encontrou a filha de um pai nervoso.

A Paróquia voltou a ser fechada. Sem uma razão concreta que a mantivesse na verdadeira realidade, a Avó Catarina entregou-se nos últimos anos de vida à sua própria realidade: o antigo mundo das janelas! Até porque, sem o Padre Inácio, nada de assustador ou interessante se passava na Praia do Bispo. Ela subia e descia as escadas de encontro a janelas que estivessem abertas ou fechadas. Se lhe perguntassem alguma coisa, dizia: «Acho que deixei a janela fechada». É claro que por vezes também dizia: «Acho que deixei a janela aberta»

Na indiferença dos tempos, misturada com a poeira típica da Praia do Bispo, a realidade despiu-se dos seus acontecimentos caricatos. Poucos anos mais tarde, a Avó Catarina morreu. Sem ela e sem o Padre Inácio, da verdadeira Praia do Bispo restou o nome, a poeira e a igreja fechada. Essa mesma igreja que mais tarde viria a ser reaberta com o famoso enterro do Sankara. Numa outra geração. Numa outra realidade.

Curiosamente, ainda hoje se fala do Padre Inácio. Na Praia do Bispo, é normalmente à hora da sopa que isso acontece. Na mesma hora em que a poeira irrequieta começa o seu descanso e que as crianças, à semelhança da poeira, são obrigadas a sentar-se à mesa, há sempre uma Avó Catarina que exclama no prazer do seu próprio gozo:


  1. -Comam tudo... Senão vou chamar o Padre Inácio



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Duas luas cheias e a morte



...em conluios subtis gastaremos a alma

e desmantelaremos fortes armaduras,

antes de contemplar a grande Criatura

cujo infernal desejo nos enche de lágrimas!


baudelaire, as flores do mal



Sobressaltou-se com o barulho da chuva como se fossem as balas da noite anterior. Levantou-se em posição de medo, como que afugentando o que não via. Com os olhos abertos até parecerem duas luas cheias, iluminou com o medo a escuridão da noite. Sem se mexer com violência, pegou na mochila, na arma e pôs-se a caminhar em direcção a qualquer sítio impossível. Sem grande precisão, sentiu o cheiro da morte. E no entanto caminhou. Por entre o arvoredo alto e molhado, através das constantes cortinas de chuva que encontrava a cada passo, ao lado do barulhinho incómodo dos bichos que não dormem nem quando chove, novamente por entre o arvoredo alto e molhado, atravessando o imenso deserto do seu próprio medo sem nunca o atravessar pois que era inultrapassável, apressando-se por chegar ao sítio impossível de chegar, andando sempre sem chegar a correr, sentiu o princípio da perseguição. Era a morte. Sem pressas também, atravessando tudo o que ele atravessava ou muito mais, mesmo atrás dele, a morte insistia em levá-lo naquela noite. «Para aonde», pensou, admitindo a hipótese de ser apanhado como uma certeza inabalável e concrectamente próxima. «Para aonde?» Num ápice molhado, sem chegar a parar de andar pensou na resposta mais adequada: «para o mesmo sítio onde levou durante o passado todo, os mortos que decidiu levar!» A água deu-lhe um ar leve, ou escorregadío, para ir atravessando a impossível travessia daquela noite e, esgueirando-se nela, na noite, e nela, na floresta, e nele, no seu medo, e nele, no seu mundo, foi caminhando sempre para aquele qualquer lado tão indefinido quanto pouco encontrável e, sempre sem parar e sem, ao mesmo tempo, chegar a correr, sentiu-a cada vez mais nítida, cada vez mais vencedora de um combate tão unilateral que transformava os adversários da morte em insignificantes e ridículos bonifrates da realidade concreta de todos os homens. Quando o medo diminuiu a sua intensidade, ainda quando chovia da mesma maneira bruta e afogadora que havia de chover durante a noite toda que ele não haveria de atravessar, chegou a parar de caminhar. Sentou-se. De arma pronta, como se fosse possível matar a morte, ou pelo menos afugentá-la, sem tirar a mochila das costas, sem fechar os olhos, sem pensar em mais nada a não ser no intenso e cemiterioso cheiro da morte que cada vez se entranhava mais não só nas suas narinas como também na sua própria vida, sentou-se. Decidiu nesse momento não pensar nela, como se não a matando com o poder mortífero das suas balas enormes, a pudesse no mínimo agredir com uma ausência no seu pensamento. Constatou com lágrimas nos olhos, embora não as pudesse sentir porque o céu lhe fornecia a todo o momento muitas mais lágrimas do que todas aquelas que teria podido produzir ao longo de duas existências, constatou que chegada a hora do encontro a morte não perdoa  ela diverte-se se está bem disposta, é bruta se está menos bem disposta, é sádica e rápida se está indisposta. Nesse mar de constatações instantâneas descobriu que a morte, chegada a hora do encontro, não permite que um homem se esqueça dela, chegando esse homem a crer empiricamente que a hora da sua morte acontece momentos antes de acontecer verdadeiramente. Rendeu-se à noite. Ao mundo das infinitas lágrimas que não eram dele e que, naquele momento afogado, eram mais dele do que de ninguém; rendeu-se aos cheiros múltiplos e indecifráveis que a morte arrasta ao longo da sua caminhada, rendeu-se à falta de ar que ia tomando conta da sua calma treinada, à água que numa floresta imensa não se sabe como, começou a subir de nível e já lhe alcançava a cintura, ao barulho longinquamente ensurdecedor dos bichos que, malditos!, não dormiam de noite, nem de dia, nem a hora nenhuma, dedicando uma vida inteira à prática constante de barulhos que irritam tanto os homens ao ponto de os fazer acreditar que tais bichos que não dormem nem de noite, nem de dia, nem a hora nenhuma, têm neste mundo a exclusiva missão de cantar e anteceder a chegada da morte. O desespero, a inconstância de lucidez e o pânico profundo tomaram conta dele. Não que sentisse chegado o momento em si, mas precisamente a tortura de que todos os antecedentes se apresentavam cerimoniosamente a ele, precedendo a tão temida morte, e, numa fila interminável e sádica, não aceleravam aquela ante-estreia, agonizando-o com a expectativa de a qualquer momento apresentá-la, sem no entanto abreviarem esse contacto inevitável, eficazmente mortífero. Sentiu ao longo das costas uma presença maciça. Era a árvore a que se tinha encostado, a que tinha encostado toda a sua repentina solidão, todo o seu pavor de ser forçosamente levado para o sítio desconhecido. Não tinha porém a cabeça encostada a essa árvore, e tendo consciência do tempo que lhe escorria pela vida a fora, encostou o mais rápido que pôde a cabeça à árvore que testemunhou a grande e toda sua dor, naquela noite de chuva aterradora e cúmplice dos banquetes da morte. Bem encostado a ela, identificando com o contacto maternal a última coisa que sentiria concretamente neste mundo, esse mesmo contacto com que se inicia a vida e que, por alguma razão, é o contacto ilusório que os homens criam nos últimos momentos de vida, pôs-se, como todos, a visitar o passado. Em lembranças dolorosas, em teleportações tão reais e comovidas que a morte sentiu dificuldade em persegui-lo chegando mesmo a pensar que ele se estava a servir do passado e das emoções para tentar escapar a ela, em episódios pequenos e curiosos que só a ele diziam íntimo respeito, em sorrisos nervosos no meio da escuridão chuvosa daquela noite tremenda, em espasmos espaçados, em tremuras não tão espaçadas assim, em terrores da volta à realidade que era a dele, esculpiu na alma duas lágrimas, uma para cada olho, tão genuínas que não só se distinguiram nitidamente das infinitas lágrimas que o céu mandava como chegaram pela primeira vez neste e no outro mundo, a comover a própria morte!A melodia da morte agudizou-se, tornou-se fluida e bela, próxima e cativante. Num gesto de entrega ao que é inevitável, ao que não se pode iludir, ao que nem sequer é utópico, levantou-se com dificuldade emocional no meio da chuva e, largando a mochila sem largar a arma, pôs-se novamente a caminhar, desta vez um pouco mais depressa, próximo, muito próximo do passo de corrida, carregando consigo o seu passado bem revivido, as suas lembranças mais acesas do que nunca, a sua arma tão pesada quanto inútil naquele combate perdido, a sua roupa ensopada, molhadíssima, afogada mesmo nas lágrimas do céu, e os seus olhos, os seus olhos que sendo duas autênticas luas iluminavam sem hesitar toda a escuridão da noite atravessando mesmo as sucessivas cortinas de água, iluminavam todo o arvoredo alto e molhado, o barulho dos malditos e incessantes bichos que ele não chegou a perceber se faziam parte do cenário da floresta, se do cenário da noite chuvosa, ou se seriam actores contratados para o ambulante circo da morte. Com medo de se emocionar ao ponto de falhar, a morte apressou-se em levá-lo. Soube aceitar que também ela, a morte, a maior das portas, se sentira comovida com a força do seu coração, com o poder místico, corrosivo e mortífero das suas lágrimas, e chorando com o homem, num acto que nunca se percebeu se terá sido um encontro, ou uma despedida, ou um lamento, ou um desencontro, ou um toque de duas grandezas, ou o gerar de uma situação cósmica absolutamente nova, nesse acto indefinível, a morte, chorosa, emocionada, quase arrependida, perguntou ao homem o que fazia a sua alma, o seu coração e a sua presença, no meio de uma guerra, que pela sua violência, pelas suas características próprias, contrastava ao máximo com o seu mundo interior, com a aura que ele transportava intacta desde a nascença, e com os seus olhos que sendo duas luas cheias eram, nessa simultaneidade branca, a morte em si. Sem saber responder, mas consciente de que a resposta ausente lhe mudaria o próximo momento, o homem parou. A morte, paciente, curiosa, esperou um pouco por ele e, olhando os seus olhos, desejou com todo o seu poder de morte que a resposta nascesse na boca do humano, que brotasse lá do sua âmago, lá do seu mundo intactamente puro, lá da matéria que revestia o seu coração, e aniquilasse naquele momento ainda nocturnamente chuvoso todas as possibilidades de ela o levar dali para si. E desejou com todo o seu poder de morte que lá do epicentro do seu ser, o homem descobrisse um momento que pudesse contrariar e vencer o momento que ela estava a provocar, para que ela, a morte, chorando, sofrendo e gaguejando ao mesmo tempo, não tivesse que o levar, a ele e aos seus dois enormes olhos de lua cheia que, na intensa magia do momento, unidos à noite, à chuva, às recordações, à própria morte, estavam tão delicadamente húmidos que pareciam vindos do fundo do maior dos oceanos, sem nunca terem sido enxugados.



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