os modos do mármore [poesia]       

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já não temos muitos dias, amor, e talvez hoje não saibas disso porque a minha voz não te quer proferir a sentença e a minha pele está já coberta pelo terriço das folhas secas, os incensos não conheceram a quentura do pavio porque eu nunca dominei o fogo


restam cânticos que são ilusões mas faz o que te peço – não creias nas miragens, este deserto é falso porque a verdade foi demasiado cavada e mesmo esta voz que te escreve são tantas e tão parcas que não saberias que grito escutar nem que cego amparar


o remoinho acendeu-se, as algas revoltaram- se e me afagam como me afundam, o deserto acordado me calcinou, a noite me consumiu e dentro de mim o mármore amadureceu – não me deixa dar-te nem os pedaços de um recado violento, solidificam-se-me as cordas vocais quando tento dizer-te “não temos muitos mais dias, amor”




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o corpo sólido da igreja

que sonha
o calor insano

    frio
    que o sino
    ontem
    vai gritar outra vez


escrevo os sonhos

    as pedras

    os gritos dos ausentes

    outra e outra vez.


escrevo luar, calmaria

brilhos secos

    nos olhos – na estrada

    da maresia...












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cumprem-se as horas castigadas de mim – dentro faz sombra impermeável à cura e eu sou este que durmo e acordo o mesmo venham as flores da escrita, venha o intervalo sequencial de dias onde o louco celebra a sua provisória liberdade, venham os lobos que hão-de morder os meus convivas


cumpre-se o destino e o regresso ao redemoinho – cá dentro faz tristeza, uma tristeza embaciada que aos outros é jardim criativo e cultura de ideias, fechem a porta ao louco, tranquem-no por dentro e deixem-no a braços com a fera


venham as flores da escrita, venha o milagre da ilusão, venha o intervalo onde o louco circula como actor normal, soltem a fera que não se vê chegar pois nasce da sombra mais próxima, soltem a fera






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