quantas madrugadas tem a noite [ romance ]       

esta estória é muito pra ti, joão vêncio




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tristezas, avilo, isso e muito mais... o passado, minhas lembranças mesmo, minhas solidões. a vida, muadiê, a vida é um antigamente só, e nós ficamos lá, cada vez mais pra frente vamos, e empurrados mas, quem, nós mesmo?, nós somos nosso próprio esquecimento – borracha do futuro a apagar o passado nas ardósias do presente.


AdolfoDido




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    Sabes o que é não sentir o coração e sentir o coração, tud’uma batida só, sangue leve no peito e lágrimas limpas a escorrer? Faz conta foste na pesca, rede e tudo, e em vez do peixe grande meteste a rede na água e te veio uma nuvem? Se é impossível? Eu sei lá, avilo, eu sei lá... Desde candengue que ando então a ver as nuvens dançar nas peles do mar, e me pergunto: assim calminho, liso tipo carapinha com desfrise, o mar não tem as nuvens dele também? De onde eu venho é muito longe, por isso, juro mesmo, nasci de novo. Vou te confessar: espanto é só aquilo que ainda nunca tínhamos vivido com a nossa pele!

Avilo, desculpa tanta filosofia, o que tenho é sede mesmo.

Num tenho dinheiro, num vale a pena te baldar. Mas, epá, vamos só desequilibrar umas birras; sentas aí, nas calmas, eu te pago em estória, isso mesmo, uma pura estória daquelas com peso de antigamente, nada de invencionices de baixa categoria, estorietas, coisas dos artistas: pura verdade, só acontecimentos factuais mesmo. A vida não é um carnaval? Vou te mostrar alguns dançarinos, damos e damas, diabo e Deus, a maka da existência.

Porra, deixa eu te perguntar ainda: uma carraça pode matar um gajo?

Ai, tás a rir?! E só vais na primeira ngala... Ouve só bem a pergunta, porque duma pergunta é que tudo pode começar. Calma, vou-te explicar tudo, o tin-tin pelo tin-tin, temos a tarde toda e se for preciso, tu sabes, depois da tarde vem a noite, nada de pressas que estômago não gosta disso, conselho da médica amiga do mô amigo Burkina. Gala só, isso é nome: Burkina?! Num ri só assim no outro que você num conhece, bom homem então, grande mô camba de todas aflições deste mundo e do outro, é verdade, porque eu mesmo aqui que estou, junto contigo, teus sorrisos, tua assistência, teu cumbú, tuas birras, eu mesmo é que posso falar do outro mundo. Tem razão, desculpa tanta confusão então; vamos iniciar os primeiros tintins.

O caso do Cão primeiro, quer dizer, não vou poder falar do Cão sem falar da dona também, mas supondo: o Cão, que não era um cão, mas o Cão, uma besta, grande animal de mangonha e sono, todos dias, o muadiê habitava a melhor parte do cubíco então, num acreditas? Porra, se tás a pensar que tou grosso, podes tirar o cabrito da chuva! Isso num tem nada a ver com os poderes do álcool, não vale a pena te espantares já, guarda pra mais tarde então, vem aí coisa de muito mais, mais-mais, o muito-mesmo.

Inda escuta: o Cão vivia numa casa, puramente acomodado, e a kota, não vale a pena estarmos mais a falar outros nomes, só o nome do meu grande camba Burkina já tavas a rir, a kota é uma porreira, lhe conheço desde candengue, tempos idos – meus cabelos todos dias me avisam. A kota e o Cão, assunto que nem vale a pena lhe puxar, a kota desvia o olhar, vai na varanda dela. Varanda dela, muadiê, nunca viste: abelhas! Ché, grande ideia da kota, agora num faz nada, as abelhas trabalham pra ela, não deste isso na escola?, as abelhas: as operárias, as parteiras, as carregadoras, guarda-as-costas e tudo já, só pra uma abelhazinha, quer dizer, abelhazona, a rainha? Pois então, é isso, a kota foi mais viva, abateu a pura rainha e hoje? Hoje? Respeitada, muadiê, a kota é a pura rainha das abelhas dela, num te conto, muito respeito. Já vi pessoa falar com jacó, com cão, com cabrito, com gato, até com Deus, mas com abelha?! Avilo, aquela kota tem!, manda as abelhas trabalhar, elas trabalham, puro negócio. Não tás a captar? Manda então vir mais birras.

A kota me desenrasca então uns almoços, na minha fome, minha desgraça que eu tive, depois te conto, a noite inda tá pra nascer. Primeiro, lá atrás do tempo, ela é que era a minha vizinha mais velha, onde pedíamos água gelada e telefonema, ché, marido dela boa pessoa, tratava bem todos miúdos, mesmo o meu velho lhe gostava. Naquele tempo telefone dava pra estranhar, sabes o quê, ficar no muro, fazer chiuuu só pra ouvir telefone tocar? Nossa brincadeira – quem ouvia primeiro. Olha, esse que eu te falei, Burkina, mô camba, era um ndengue muito craque, via mais que todos à noite, tipo gato, lhe estigávamos de feiticeiro, o muadiê só ria, ouvia o telefone antes de tocar, só lhe víamos já o riso dele no lado esquerdo da boca como ele ri até hoje, e até aguentava melhor o jindungo na kitaba, nós lhe invejávamos e ele nos invejava: é que o muadiê, na escada do tempo, esqueceu de crescer.

Yá, nós alturámos, o gajo nada, se male mesmo, primeiro era só cambutismo, lhe estigávamos só dum coro, depois desistimos, aquilo já não era matéria de estiga – respeito só. O muadiê ficou grosso, mas só pra cada lado, e batia male, começou a ficar tipo maboque, azedado, quase não falava. Mas era potente nas damas, xaxeiro de competência reconhecida até na Ilha, único que num era kiungueiro, só kinjango dele, avilo!, tava a nos meter respeito quanto mais nas damas! O nome dele depois, não sei quem descobriu, se estendia: BurkinaFaçam, brincadeiras com a pátria dos outros, mas esse nome a origem dele é a preguiça do Burkina, mesmo a professora já tinha lhe dito

o teu problema não é a altura. É a preguicite aguda!

Aquilo foi estiga ou quê!, nunca mais esquecemos, o Jaí decorou a frase, tipo duas semanas só falávamos já essas palavras difíceis, um dizia

preguicite

outro respondia

aguda!

tavamos a se cumprimentar já assim e tudo, mesmo mais velhos tipo a KotaDasAbelhas a nos aconselharem

essa frase não dá pra tudo

mas tás a ver, nós, candengues, queríamos gastar todo riso da frase, espremer-lhe as gotas da cócega, tudo também a espremer a paciência do Burkina.

Tens razão, vou voltar mais atrás, a kota, era isso mesmo que eu tava a falar, quer dizer, tenho que te contar também essas coisas todas, as recentes e as do antigamente, senão não vais captar e daqui a bocadinho vais querer me ruar da tua mesa... Tou ta chular birras?, não é isso, meu, calma só. Essa é a mais pura estória que vais ouvir, até vais pagar no fim pra eu te contar de novo, ou então vais querer que eu ponha mais outra estória, mas não dá, como esta..., como esta!, mô bróda, não tem igual mesmo.

Passa só uma de-bíers então.

A kota, nossa vizinha desde o tempo da barriga da minha mãe, sempre ali, casarão dela, o avilo dela campou cedo, depois vieram as independências, estatuto dela então ficou nos arrastos do tempo. Ela mesmo discreta, porreira como desde sempre, nossas águas geladas, mesmo fingia não nos ver, nós bué, fim da tarde, no quintal dela a gamar mangas. Avilo, foi ali naquele quintal, antes das damas, das manobras sexuais, ali aprendi a palavra doçura, aquela mangueira dizem era regada com chá de caxinde, mentira posta pelo kota Diarabí, mais velho da nossa rua, o cego mais vijú que já conheci – em 92 lhe apanhámos a esquivar bala; brincas?

Um dia as abelhas chegaram já, primeiro umas, depois as restantes, mais tarde a filharada toda. A kota então tava a se fingir de banqueira, dentro de casa, entrincheirada já e tudo, nós lhe berrávamos

tá precisar d’alguma coisa...?

ela sorria na janela de pó, sorriso antigo, limpo. A kota, olho e sheltóx à espera, desintrincheirou veloz, na visão certeira: como digo, viu a principal abelha, a kota tinha estudado bem as lições da antiga quarta classe dela, quem mata rei, rei fica, nunca ouviste assim? Pois, e a kota: a abelha rainha em voo distraído, a kota metralhou meia lata de sheltóx – ou era flit? –, aquilo foi de ver e pedir bis: parecia era dança rebita, todas abelhas operárias e demais ao redoro da kota, mesmo nenhuma picada, só bzzz-bzzz de respeito e dali pra diante, ela mesmo, pessoa e rainha, abelhas escravas dela – outros tempos, muadiê, outras tecnologias. Já viste varanda virar bizness? Ah pois!

Aquilo é a delícia toda – se provas a tua boca só quer já mais, ruína do teu bolso, aquele é mel dos céus, não é mais coisa de capurroto, porque maluvo, porque kimbombo, mais velhos do Mussulo bem dados!..., ali é mel, e podes galar desde moto simson até carro de deputado a parar no passeio dela, buracos e tudo

dona, tem mais daquele mel bom?

até vais pensar que aquilo é pessoal do Brasil a chegar ali, eles que gostam de usar a palavra mel pra chamar a pura branquinha, a água que arde, não sabes?, porra, grande matumbo você: aguardente!

Bom, a tarde já se fez, vamos no prolongamento das coisas: não posso nunca esquecer a carraça, podes rir mesmo, mas essa carraça é que vai nos acompanhar e explicar tudo desde o início. O quê?, o início mais outra vez? Não tás a captar, avilo..., aqui todas pontas da rede são o próprio início, podes pegar de qualquer lado, então eu num comecei a te avisar que às vezes um gajo vai na pesca e chega em casa, tua mulher furiosa, tás atrasado, afinal trouxeste nuvem pra ela grelhar?! Ché!, vai te partir os cornos, vai chamar pai dela então. Calma só, já sei, teu cumbú, tu mesmo é que tás a patrocinar as ngalas, vamos só devagar, kuxacatamente: tenho que te apresentar a carraça. É que tá tudo ligado, muadiê, a vida é um mar picado e todas praias são filhas dele, tentáculos do mesmo polvo salgado – queres escolher qual?

Antes da carraça está o Cão. Antes do Cão está um outro gajo de seu nome então que dava também pra ser estigado: AdolfoDido!, tás a captar? Diz só rápido... Já captaste? Adolfo...Dido, Adolfo...Dido, tudo isso era a maka dos mais velhos porque iam ter que pronunciar a palavra já essa, fodido, e o muadiê mesmo nem sabia, esse nome é que ia lhe besuntar toda a vida de gente a lhe foder toda hora, tipo quarra mesmo, um gajo de azar na pele, fazer mais como então!

Esse Adolfo, nosso camba também. Nós então, Burkina, já te falei, o puro Jaí, que era albino, já te falei?, e o AdolfoDido. Então: ele foi dos primeiros visitantes na casa da KotaDasAbelhas, desarrumações dela lá dentro, conforme veio reportar logo depois da primeira visita. A kota era dada a animais: abelhas, negócio obrigatório e safa de vida, e o Cão, avilo, dá medo só de contar, até hoje trememos e não falamos: o Cão – só assim, não tem nome e tem mais nome que nós dois juntos. Aguentas? Isso até vai pedir mais uma birra – venha ela.

Mas, assim, pensas que isto tudo é uma confusão, circo meu das palhaçadas, cabeçadas na lógica? Ainda vais rir, mas prepara também o teu coração pra chorar, a vida é mesmo esse laço apertado, tem dias que lhe conhecemos os segredos – lhe desapertamos, outros dias lutamos só, nossas derrotas e lágrimas, e ficamos a olhar: o pescador se irrita com os nós da rede? Isto tudo que eu te falo, não é efeito do álcool, não é com três nem sete que vais me derrubar; isto tudo que eu falo é assim mesmo, a mancha da confusão, labirinto, e há que descobrir as coisas no devagar das coisas: o amor não acende num fósforo sozinho. Vai só ouvindo os nomes que te ponho, a kota, os cambas, as abelhas, a carraça e o Cão. Jardim zoológico mais?

Agarra só a tua calma.

Te contava: esse mô camba Adolfo foi o primeiro a visitar a casa, os interiores do reino. Hoje lhe chamamos reino, porque tinha tudo lá dentro pra ser assim, mas não tou então a falar mais do caso da abelha morta, a rainha, e a rainha posta – a kota. Estou a falar dum rei então! Duvidas? O Cão, meu, aquele Cão virou rei. Nem que m’apontes a cabeça na pistola nunca vou saber dizer: porquê? Tens que perguntar na kota, posso te apresentar, casa dela na minha rua. Só não posso é t’apresentar o Cão, depois te explico porquê, pra não estragar os caminhos da estória, eu preciso de beber, avilo, e não é beber pra esquecer, é bem acontrário: beber pra lembrar, beber pra contar. Ai uê, meu rasto do passado: se te entorno aqui môs esgotos, minhas lavas, é que sempre me disseram: pra curar a ferida tens que lhe olhar no sangue dela. Mas assim, tanto?

Surpresa nossa, não sabíamos, o Cão era o dominante

tou vos a pôr avílos, espaço só dele, sala de televisão, o maior quarto do cubíco. Aliás, aquilo é sala, só que foi transformada no quarto do Cão. Todos mambos: sofá, cobertor, comida com hora marcada, o puro mel e tudo. Porra, eu queria ser cão também!

palavras do Adolfo sempre que saía do cubíco da KotaDasAbelhas. Às vezes, nem era sede nem nada, as curiosidades mesmo

kota, tem água?

e ela logo bem simpática

entra só, filho, não tenhas medo das abelhas, elas não te mordem

aquilo então era verdade, algumas tinham serviço extra, contornar a sala, catar moscas pra não incomodar o Cão. E ele na ex-sala, porta pouco aberta, ele, o dogue

só o olhar, muadiê!, tá dar medo. Nunca cheguei de olhar mais que um pouco tempo, só pisca-pisca de olho, brilho nos olhos dele, calmaria raivosa, janela do diabo ou quê?

Ahahah!, o AdolfoDido vinha borrado no medo de nos contar essas estórias assim dos olhos do Cão, o muadiê virava poeta, meu, o medo traz outras propriedades, nós só de sabermos qual era a janela correspondente com o Cão também já pouco olhávamos

dá azar!

sempre dizíamos. Aquilo era um senhor Cão, dono do mundo dele, quer dizer, a kota que era rainha de abelhas perdia estatuto ao pé dele, o filho da puta do Cão!

Mas, nestes presentes de agora é que tudo tem uma razão de ser contado, e uma razão de tristeza: todos desconfiamos que foi ali, nessas idas dele, que o Adolfo pegou então a doença que lhe foi matar. Só pode ser, eu nem acho que é feitiço ou coisas do outro mundo, pra mim foi a carraça mesmo, tentaculista das febres do mal. Ah pois!, agora já entendes, né?, é por isso que eu te perguntava: uma carraça pode matar um gajo? E agora? Num queres responder?, então passa lá mais uma birra, vamos lubrificar a locomotiva falatória, como dizia o kota Odorico.

Quer dizer, a morte é sempre um de-repente, vamos fazer mais como então?, agora estamos aqui, daqui a bocadinho já podemos estar do outro lado do rio, meu camba Arlindo é que dizia

a vida é uma jangada, veículo da curta travessia, temporal... mas: mesmo a jangada afunda.

Aquilo foi muito repentino pra nós: sabes há quanto tempo não via o Burkina chorar? Nem lembro mais, foi por causa de estarmos a pinar na Ilha, e o muadiê não aguentou a estiga de não saber nadar. Quer dizer, se atirou só assim na água, bom mergulho mesmo, nós até ficamos admirados, nossas bocas abertas à espera que ele voltasse. E ali a corrente não era de brincadeira, quem ia pinar pra lhe buscar? Sabes? AdolfoDido. Aquilo foi por instinto, eu acho, ele não é nada das coragens, mesmo estórias que ele conta militares, tudo então pura ficção, estórias bem verídicas, como ele gostava de dizer. Saltou, mergulhou, demorou: a vida é bonita de lhe voltar a ver, eu vi duas, e o Burkina sem ares pra respirar, só aí na areia, não sabíamos que fazer

tem que dar beijo da boca!

mas quem ia dar beijo na cara feia do Burkina?

AdolfoDido de novo!, isso já foi coragem mesmo, tenho que admitir, Burkina então é um gajo feio, meu, não dá pra lhe beijar assim, lábios de homem com homem. Mas foi. E mudos, nem falámos mais. Voltamos só assim da praia, nosso segredo, e o Burkina, que não tinha palavras, chorava só: não era lágrima de medo, aquilo eram emoções, lágrima do agradecimento que as palavras não podem falar. Você cala, chora só; nós lhe entendemos. O Adolfo nem disse nada, nem pusemos no Burkina mais estiga de nada relacionado com o mar, e vimos o Adolfo com outros olhos; nesse dia ele nos ficou adulto.

Desde esse dia nunca mais tinha visto o Burkina chorar. Só que a morte desbloqueia essas coisas, mecanismos das lágrimas, verdades que temos guardadas no nosso coração, o tudo e o tanto – podem mesmo nos fazer falar com uma pessoa que não conhecemos... A morte, muadiê, porra, dá medo!, o Burkina tava a chorar mesmo, lágrimas então parecidas com as desse dia da praia, então o muadiê que tinha lhe salvado das águas, tinha assim morrido sem lhe avisar, sem dar tempo do Burkina lhe devolver o beijo da boca? Meu, dias tristes, nosso desgosto, o albino Jaí tipo tava a ficar maluco, ele é que tava a dar as voltas do enterro, já até tava esquecer o antigo hábito de sempre procurar as sombras do dia, nunca parar na quentura do sol. Ai, nunca reparaste? Assim, meio-dia, os albinos, pausam em baixo da árvore!... Mambos de pele, makas que nós desconhecemos, mas é preciso respeitar então, num ri só!

Yá, o Adolfo tinha campado, soubemos só assim, mujimbo de boca-em-boca...

Ou então deixinda arrecuar pra te contar tudo mesmo: começamos na carraça, porque eu agora sei que foi da carraça, mas na altura ninguém sabia, tás a galar? Calma só, não é nenhuma confusão, são várias e muitas confusões; primeiro: o morto tinha duas damas; segundo, havia aquela maka das viúvas do estado, os guitos lá dos ex-combatentes, num tás a lembrar? Isso foi naquelas semanas das chuvadas, num tás a ver? Calma então, vou te localizar devidamente.

Foi durante essa chuva que ninguém já entendia, até tavam a dizer que era por causa da morte do man Mbimbi, que era feiticeiro, e que agora essa chuva toda era mesmo por causa dele morrer assim sem pura despedida, morte matada de repente, é que os ngapas precisam das cerimónias todas da despedida, não é assim só, aká apontada e disparada e pronto! E as chuvas tavam aí pra confirmar – Angola ensopada, me lembro bem, foram dias do outro mundo... Mu Luanda, bróda?, até a Kianda, habituada nas águas, tava ficar atrapalhada!

Avilo: esgoto do mundo?, fim da cauda do rio onde a chuva faz as vinganças dela? Chuva já não era chuva!, até nós aqui chegamos de meter respeito nos bródas moçambicanos, mesmo eles especialistas das enchentes. As costuras do céu tinham rebentado e o costureiro-anjo tava de férias – e nós aqui, a aguentar as aquáticas consequências: mais calamidade menos calamidade, quem quer mesmo saber? Internacionalmente somos mais destacados é na guerra e na fome, única chuva que lhes interessa vir aqui sofrer é chuva petroleo-diamantífera, tás a captar, uí?, outras chuvas das lamas dos mosquitos gordos de matar ndengues na febre das madrugadas, ou mesmo chuva do sorriso repentino e rebentado dos alcatrões de nunca mais lhes consertarem, ou chuva molhada nas nenhumas tendas e telhas dos deslocados provinciais da nossa guerra gorda e engordante, essas são chuvas mais próprias pra pobres, e essas ninguém veio aqui pôr pele dele pra ser salpicado na visão dos olhos: andar já era nadar, conduzir já era navegar, sofrer já era só esperar. Nosso povo mesmo é que me causa espanto no coração: rir é rir, um acto labial de para-sempre, e rir não só pra dentro, mas de dentro pros outros também, pra atingir e tingir a vida. Agora parece vou ter que te falar isto: aqui a vida é que está ser adoptada, fosse uma criança d’olhos bem ramelados que você no olhar lhe busca e encontra a ternura – aí você lhe gosta, lhe habitua. Aqui a vida parece uma criança enteada que lhe aceitamos em casa, ela a fugir da guerra... Divago, avilo?, navego nas lembranças molhadas desses dias? É porque não viste: sofrimento aqui lhe maltratamos male!, ele desiste de nos maltratar, muangolê então é nervoso: a chuva era uma quase calamidade?, lhe tavam a receber mesmo assim, sorrisos, novas negociatas que as águas trouxeram, aprender a nadar agora na piscina de alcatrão, ex tua rua, ex teu trajecto dos pés poeirentos. Num duvida só, era muita chuva, só que: aqui somos muitos também. A união faz o reforço? Meu: é no sofrimento que o sorriso dum povo fica todo semelhado – uma única boca sem rosto a rir na cara da desgraça, a lhe amolecer. Brincas? Porque desfortúnio, inundação social? – é quase sempre uma questão de olhos, olhares. Não espanta só, uí, gala inda: o imbondeiro pra ti pode ser uma árvore cambuta-seca, feia. Mas!, e se eu te emprestar outras vistas: árvore antiga-rija, bonita de ilustrar muitas vezes o sol poente?

Olha o Burkina, sempre dum lado pro outro pra tratar das makas do enterro, e já tinha havido muita confusão

porra, nunca vi um morto mais azarado! Já telefonei pra DonaDivina, já telefonei pra KiBebucha, e ninguém sabe me dizer nada do corpo

e assim mesmo como ele tava enervado, esse mesmo, o BurkinaFaçam, todo pequenino que ele é, desatava só a chorar, porra, tava a meter impressão meu, não dava pra falar com ele.

Deixinda ir mais atrás, os primeiros dias: acho que dois dias, ninguém soube nada, não tínhamos captado bem o acontecido, até já tavam a dizer lá no bairro que era só mujimbo, que o Adolfo num tinha nada campado. Isso é que num podia ser, porque a notícia depois apareceu no jornal com foto preta-e-branca do antigamente, pura quindumba jimy, e não há dois gajos com esse nome em Luanda, porra! Fim do dia: o Burkina e o albino Jaí já sabiam que o corpo tava na morgue, mas por causa da tópsia não podia sair, e houve maka lá mesmo, por isso é que te falei das duas damas do Adolfo.

Vamos só devagar, vou te pôr os casos, senão não vais captar nada e daqui a bocado em vez de bebermos vais querer só fazer perguntas e mais perguntas. Pergunta é na escola – aqui é birra! Ó piô: traz aí mais uma.




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Muadiê, já dizia o kota Guimarães, rosa no apelido e olhar dele: cada criatura é um rascunho a ser retocado sem cessar...

Num sei explicar; pra mim, minha uma outra alcunha podia ser qualquer palavra parecida com madrugada – sou muito isso, o avesso duma noite a provocar as beiras dum dia seguinte, radioso. Brilhos, encantamentos, num sei desenhar, uns pensam que é da tibaria, mas aqui de caxexe mais, ponho: num é nada disso, as coisas do sonho e das palavras soltas da boca não começam nas ngalas e chegam aqui nas conversas depois, mesmo as conversas dum gajo divagar sozinho, num é nada disso!

Gosto de estar preso na infância e sei muito mal desprender-me de lá. Mais das vezes acaricio lembranças, nuvens esbranquiçadas nas chuvadas da minha memória – avô, avó, e os bichos da rua: me lembro muito das libélulas, que nós chamávamos de helibélulas, e nos meus sonhos, um dia, consegui vislumbrar um gambozino. Era de tarde, muadiê, e fui já dar encontro nos cambas da rua pra contar como era afinal um gambozino. E como é então?, me perguntaram, e eu só quis chorar: porra..., esqueci!

Às vezes me volta esse pensamento: ando perdido no mundo, na imensidão duma profunda madrugada: minhas estórias onde procuro morrer fosse um louvadeus nos actos carnais do amor: atrevimento de morte, estória e tristeza no acabar de contar. Te pus, te ponho: os olhos brilham mais é na escuridão; pirilampo espera noite pra ser alguém; peixe fica seco é dentro d’água, fora dela é que ele transpira de morte; etecetera, muadiê, pra te dizer: de noite é que perco vergonha de ser eu mesmo e abro as torneiras do imaginado: meu coração de ser assim, contador. Pouca inventice, transformo só o material pra lhe dar forma, utilidade. O artista molha as mãos pra trabalhar o destino do barro? Eu molho o coração no álcool pra fazer castelo das areias em cima das estórias..., e o mô espelho são as madrugadas.

Uma noite, quantas madrugadas tem? Andas a contar? Eu não. Lhes apanho só, conforme lhes vejo e sinto. Atrevo: uma só noite tem bué de madrugadas; cada uma dessas madrugadas tem bué de brilhos. Confesso-me aqui, nos lábios da sinceridade: gosto muito disso – acreditar no impossível das palavras, lhes maltratar no português delas, ser livre na boca das estórias e me deixar tar aqui, sentado dentro de mim, abismático. E sonhar!, sonhar até chegar nesse quintal onde dentro de mim nascem barulhos e não só: nascem brilhos. Vejo búzios que riem à toa e aprendo: posso descansar as vozes como se fossem conchas de pousar na areia depois de lhes apanhar numa noite de lua brilhante. Depois do barulho das vozes os búzios se calam e eu, no respeito, me calo também.

Sabes, muadiê, aí sobram só calmarias da noite. É aí que logo-logo começam a rebentar devagarinho os brilhos, os brilhos da madrugada. Falei ou disse?

Dado o adiantamento da conversa, vou-te pôr aqui uns passados. Não são mais dicas da retórica criativa ou derrapagens discursistas, como dizia o kota Odorico, mas as palhas que faltam no teu luando – migalha com migalha num faz micate?

A palavra madrugada me acende o coração, fogo mesmo, ondalu dizem, e ela já vem aí. Se a senhora tua esposa num te espera no cubíco, se não tens candengues pra deitar nem sogra da língua de cobra pra cuidar, e como num vives em jassanã nem aqui tem nenhum comboio das onze horas, vou-te pôr uns passados, que é um dos outros lados das pessoas, pele onde todos dias sai o ditado da vida e cabulamos nosso destino incerto.

Não pode é faltar o puro combustível, já te expliquei... Manda lá vir mais umas então, que nunca fez mal a ninguém beber só mais uma – de cada vez!

Vê o caso do BurkinaFaçam, anão desde a nascença dele até na nossa descoberta que ele num ia crescer mais, só assim, foi se complexando no avançar dos tempos – calado, raivoso, mesmo connosco sem mais muitas brincadeiras de estigas que ele num aceitava, só resmunguices, nem mais kibionas nas festas de contribuição da nossa rua, meia-noite, hora dos beijos bem molhados com nome de peixe, linguados, e de se fazer malcriado na casa do kota Diarabí, que supostamente não via nada, ou quase nada, como mais tarde lhe descobrimos, em 92, a esquivar bala. Aguentas?

O Burkina deixou a escola na conta da estiga, mas tu brincas ou quê?, estiga pode acabar com uma pessoa, tinha um gajo lá no bairro, nome dele esqueci nos temporais da minha memória, será cerveja também?, num sei, o gajo estigava male então, te punha a chorar babas e ranhos de você ir na tua casa mal disposto e num querer falar mais com ele uma semana. Mas porquê então?, hoje eu me pergunto, porquê que as pessoas num sabem aceitar só a craqueza dos outros, jeito dele mesmo era só aquele, das puras estigas... Póster dele, avilo?, ficar só aí no canto a ouvir-ouvir, e quando aparecia assim um gajo já armado em esperto, mesmo da nossa escola ou doutro bairro, aí então inda pior, o muadiê vinha só nas calmas dele e te punha

é só isso que tens pra me estigar?

e os gajos, que num lhe conheciam começavam já a rir

olhinda esse gajo, tás armado em bom ó quê?

ele ria só, perguntava de novo

é memo só isso que tens pra estigar...? então vou t’acabar!

Meu!, essa frase dele de dizer sexta-feira na hora de irmos embora que ninguém ia, só de espanto, ficar ali d’ouvidos bem abertos a ver se captavas a rapidez dele nas estigas que te punha. Quê?, exemplos? Num sei se lembro, tou a lhe falar agora, esse gajo das estigas, por causa mesmo do Burkina, que só assim à toa gostava de se meter com o outro, mesmo nós já sabíamos que não valia a pena, ficávamos só a rir quando alguém de fora a lhe ver assim só no canto da árvore pensava ele era o maior banqueiro, afinale!, avilo, ele era o nosso puro monacaxito das estigas, te furava pior que aká, ias em casa pedir perdão na tua mãe só de teres te encontrado com o gajo!

Estigas dele?, ofensas!, meu, puramente familiares que eram as estigas mais agressivas dele, se eu tou ta dizer podes acreditar: vi muita gente chorar na boca daquele muadiê, estigas dele mesmo algumas curtas já te acabavam

foste roubar pecado na igreja com carro de mão!

ou então metia animais

no tô cubíco compraram um rafeiro em segunda mão que já num ladra!

e mesmo podiam lhe pôr estigas fortes o muadiê ficava parado, riso dele irritante na tua cara, ias já ficar nervoso, e ele só a te esperar

estiga mais, estiga mais então...

e tu continuavas assim a gastar mesmo as tuas estigas e ele ia mandar todos fazerem pouco barulho e te dizer assim da cara, pra dar mais raiva

no tô cubíco tem dois ratos mulumbeiros que te dão aula de jeová.

Essa estiga pôs muito avilo mais velho a chorar!, ché: dois camundongos que são mulumbeiros inda por cima te dão aulas, e num é aula matemática-português, aula de jeová, meu? Você chora!

Eu sei, voltar mais no assunto, mas já te expliquei, te ponho aqui ilustrações do antigamente, pensas que é só assim, avançar na estória sem os porquês e os entretantos? Calma só, assim vais me fazer te emprestar a voz do mô avô quando falava aquela frase dele

vai devagar pra chegares depressa!

Eu te falava, o Burkina, esse tempo das estigas foi dos tempos únicos dele da escola, depois se foi, anos desaparecidos do contacto lá do bairro, cambas dele a quererem imaginar onde ele tinha ido, e todos a crescerem só assim, nas alturas da juventude, mesmo a se lembrarem que o Burkina era dos que não cresciam mais assim por fora, quando muito lá nas raivas de ter calhado, ele, ser assim, o anão do bairro. Complexos dele, complexos de toda gente, que dá pra nos afastarmos do mundo, ou não é assim, muadiê?, se você num tem os puros cambas que te ajudam, mãos nas tuas costas de estares assim chateado com a vida que te nasceu dum modo ou d’outro que você não gosta, se você prefere os isolamentos da imaginação sozinha, isso é que faz um gajo se afastar dos outros – das pessoas.

Vê o Jaí, vida dele também sem ser fácil, toda hora ir de manhã na escola com banda sonora

olha o kilombo!, olha o kilombo!

ele só assim cabisbaixado, de vez em quando surrava lá o banqueiro dele, mas, porra, num podia pelejar todos dias, e gajos grossos lá no bairro dele lhe chamavam

kilombo, toma graxa de sapato uê!

ele tinha só que aguentar, mas aguentou até nas habituações das pessoas, que depois também deixaram já de pôr toda hora kilombo, kilombo no muadiê, porque já dizia a KotaDasAbelhas

o que é de mais, cheira mal

e não é só isso, meu, toda hora a mesma graça perde a piada então... Só não perde a piada é essa cerveja bem gelada que vais me passar.

O Jaí se decidiu mesmo pelo professorado, fez o INE todo das matérias do éme de enfiar nos putos dicas ngangulares pra não dizer mais, e hoje tá aí, professor Jaí, ou profe dreda como lhe chamam os alunos, esses, que ficam na escuridão das aulas e, em vez de escreverem, mais conversam, que é uma boa maneira de captar a atenção dos miúdos, estórias da vida que ele relaciona lá com as aulas e assim vão estudando as matérias, redacções que ele corrige em casa, riso dele na colecção de redacções que ele faz, porradas no português escrito e falado

atrocidades criativas

ele diz, pior que os pontapés que eu dou – como já viste, que eu num ligo nada nessas coisas do português correcto e sabes porquê?, te ponho, muadiê: porque se o mundo tá torto como tá, deixa lá o português ser uns coche massacrado também.

O que eu sei, te falo: sem nada de esconderijos, conversa afiada daqui pra frente, mas como foi até agora – com base nas verdades. Tás com frio? Porquê? Eu nada, nada de nada mesmo, coisa que eu adoro em Luanda estas temperaturas assim dum gajo tar aqui, sentado nas madrugadas brilhantes, tudo calmarias da noite e a simplicidade essa das pessoas da nossa terra – muadiê, só te ponho, estar em casa cuia!, e não fica a dar saudades violentas.

Eu já tive nas europas, já te falei; aquilo é demais: cor da pele, avilo?, pode te desgraçar. Sabes o que é um gajo andar assim despreocupado, mas aqui é na banda, agora chegar mesmo na tuga, tão te a olhar tipo esse gato preto eu te falei, o feiticeiro? Eu mesmo, ngapa agora só porque nasci escuro e um ngueta assim todo europeu, mais matumbo que eu, a me a olhar do ponto das vistas racistas dele?

Ouve, uí, eu bazei da tuga por causa disso então, os olhos dos outros tavam a me querer ensinar outra pessoa que não era eu, cheguei mesmo a dar bofa num dikota, ai uê, já viste, eu mesmo, crescido aqui no mô bairro, minhas correrias, minhas kibionas inofensivas nas damas que gostavam, eu mesmo, agora, só porque na tuga, país do outro, dar bofa no mais-velho? A tuga faz mal, avilo, coração que muda de cor, outras manhãs, mbambi a dar do osso, você já não quer acordar – e a primeira pessoa que encontras na rua vais querer lhe dar bofa mesmo com vontade ou raiva? Nada..., a tuga, até num vale a pena...! Mambo que às vezes penso – epá, vais rir, eu sei, mas é o rabo das tugas... Meu, tábua d’engomar, a xoetice toda? Rabo foi aonde então, Nzambi lhes castigou assim porquê?, nossa observação que nós fazíamos, antigas missões na tuga e noutras europas mais, comissão disto e daquilo que dava é pra tirarmos comissões no nosso bolso, e nós ali no bar, fim de tarde, sem as palavras – os olhares só: uma tuga, duas tugas, muitas tugas, mas agora pra encontrar inda um rabo de acender mesmo as vistas? Passas mal. Uí, falo isso por causa da maka das culturas, diferenças só, que eu fico mesmo a pensar que a cultura está mesmo até nos nossos olhos de pessoas, tás a rir?, gala só então: um gajo é daqui, fica a pôr riso na dança dos tugas e outros europeus, ancas desarranjadas e não dão semba, tão a falar é malcriado, mambos dos brasileiros, carnaval só. Afinal? Mas depois, considera só: eles também a nos verem dançar e vestir e pôr cu duro, num vão falar dança dos bêbados?, a dar bungula puramente e pôr açúcar e as kabetulas todas, num vão dizer estamos a ficar parecidos com os macacos?, xinguilamentos musicais? Olhos deles, muadiê, tou ta pôr, e os nossos olhos todos de cada um: culturas!, num enome plural e final das contas.

Ando a pensar estes dias: tanta coisa anda a me acontecer na minha vida, mesmo incluindo essa minha conversa contigo aqui, que ficas só a me deitar olhares desses, tipo eu sou maluco de ficar a te contar bué de mambos, várias direcções da conversa, às vezes num captas, né?, pensas que eu avario, mudo sulinorte nos poentes e nascentes, trocadilhos dos personagens, é isso? Calma só, muadiê, como eu digo: pra saber q’a maré tem quatro comportamentos, é preciso olhar o mar um dia inteiro, tás a captar? O que eu te ponho aqui, dica ou recordação, vais precisar pra entender tudo. Portanto, desculpa só, eu sei: meus devaneios todos, minhas outras lembranças, mas tá tudo ligado, num dá pra fugir, os assuntos tão todos aqui, minha cabeça cansada, minha sede também. Sai mais uma birra?




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