há gente em casa [poesia]       

twitter.com/ondjaki   |   english   |   español

*



...


sigo a sombra lunar

nela me dispo;

deixo nuas as mãos

que acariciam os olhos,

que atravessam a noite.


a música lenta vai chegando:

chora o que seria

um harpa;

chora por dentro

tudo o que é

o meu corpo quente.


eu queria um corpo novo em folha;

sobretudo outras dores

outros fantasmas.




...




a noite fez-se

raiz e caule

da lua.


ganharam corpo

as sombras

e os pesadelos.





na escuridão

os pássaros

deixaram-se adormecer


e voaram.



...




as feridas falam dos dias

na solidão,

e da extensão

do percurso.

trago esse pouco que é

quase nada.

arrasto ruídos

para anunciar a minha vez.

chego como quem está

ainda por chegar.


(...)



                    *



                    “há um tempo que se faz veloz

junto dos homens

o seu nome é o corpo de um rio.

um rio errante ecoado pelas garras de

                    um bicho que não morde,

de uma corda que só estica

à força de ser branda;

há um tempo

que se faz brando

junto dos homens,

o seu corpo imita a deformação íngreme de um rio.

é um riso; é um bicho;

é a mão gigantesca que afaga

no lugar de agarrar,

e realmente só agarra quando quase

                    nada pode segurar.”




[ recontar África:                 desde o gesto ou

    passando pelo fim? ]