(...)


A luz faltou de repente.


Nessa escuridão de melodia doce ou silêncio quente, entre zumbidos de mosquitos e o cheiro dos fósforos a acender a primeira vela dentro de casa, ganhei coragem na voz e falei:

– Tu não achas que as pessoas são uma coisa tão bonita?

Ela não disse nada, nada mesmo, mas também eu não estava certo de uma resposta possível.


Nessa ausência de luz, ela olhava para mim, numa travessia de escuridão e cheiros. Tinha uns olhos bonitíssimos e continuava em silêncio.


(...)


O silêncio é uma esteira onde nos podemos deitar.

Esteira de poeira cósmica, se eu olhar de novo o céu escuro. Esse azul do céu me lembra o chão do mar. Um mar, afinal, é só um deserto molhado, em vez de homens e camelos, tem peixes e canoas a passear nele. O deserto é parecido com o mar, o mar é parecido com o universo cheio de estrelas pirilampas.

O deserto podia caber no peito do mar, o mar podia caber no corpo do universo, o universo só pode caber no coração das pessoas. A mão dela estava perto da minha. Senti uma comichão de ausência na proximidade daquele calor, sabia que os dedos dela estavam ali, e continuava a falar para não saber, no coração, que todo o meu corpo pedia uma carícia calada.

– Achas que pode caber o quê, no coração das pessoas?

– Muitas coisas. Um poema, uma recordação, um cheiro de infância, um «desejo de estrelas»…

– Como é um «desejo de estrelas»?

– É olhar para uma estrela e desejar uma coisa.


(...)


Num susto quase pouco, ela fez-me uma festinha lenta na mão. Ternura e gesto de amansamento.

– Vou-te contar um segredo – ela começou.

– Ainda conta – perdi o pirilampo de vista.

– Dizem que quando um silêncio chega e fica entre duas pessoas…

– Sim?

– É porque passou um anjo e lhes roubou a voz.

– Tu acreditas em anjos?

– Tu não acreditas em silêncios?

Fosse de esquecimento ou não, a mão dela tinha ficado ancorada na minha, concha e búzio nesse silêncio inventado pelos anjos.












(...)


A porta da varanda abriu de novo. Uma luz pequenina apareceu primeiro. Depois a mão bonita da minha avó. Depois os pés e o corpo. Eu falei rápido no ouvido dela: «repara no pé esquerdo».

– Tudo bem aqui na varanda? – falou só a minha avó, e regressou com a vela para dentro de casa.

Deixei ficar o meu nariz perto dos cabelos dela. O vento soprou, como se fosse cena de cinema. Os cabelos dela voaram na minha direção. Por momentos, fizeram-me cócegas nos olhos. Tudo cheirava a abacate: os cabelos dela, o vento, a noite.

Eu sorri porque continuava na vontade de um beijo. Ela sorriu porque reparou nos quatro dedos do pé esquerdo da minha avó. Os meus olhos sorriram porque tinham tocado os cabelos dela.

A lua estava pendurada em cima de nós. O céu já não estava tão azul-escuro. Os morcegos brincavam de trocar de árvores, gritando – como crianças alegres – nessa brincadeira voadora, e os grilos grilavam muito perto.

– Cheiras a abacate – eu disse.


Ela pegou no cabelo, cheirou.


Eu olhava a parede branca como se já pudesse ver algo. Sem saber, ou talvez já sabendo, só esperava que um carro de faróis acesos iniciasse a magia. Esperava também que as estrelas do céu inventassem uma poeira nova. Não tinha voz de falar. Vi, como plumas dançantes, as pestanas dela a pentearem a noite.



















8.11.2004 (5:47am)

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Uma escuridão bonita



ilustrações de



antónio jorge gonçalves


[ www.antoniojorgegoncalves.com ]

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“o escuro às vezes não é falta de luz

mas a presença de um sonho...”



velho muito velho que inventa as palavras

“a beleza às vezes é um lugar

onde o olhar já sabe aquilo que não quer esquecer...”


velha muito velha que destrói as palavras