e se amanhã o medo

(contos)



A libélula

[palavras para o Dr. Carvalho]




se destas pedras uma

anunciasse

o que a faz silêncio:

aqui, muito perto,

[...] isso se abriria, como ferida

em que terias de mergulhar


Paul Celan, A Força da Luz.



Um som fluido abandonava a casa, roçava na poeira das trepadeiras no jardim, influenciava as mangas e os mamões no seu processo de maturação, arrepiava uma libélula inebriada que ali adormecera, fazia o sol abrandar e chegava, ainda forte, ainda nítido, ao ouvido da mulher. Depois disto, um sorriso.

Na aparelhagem o som acontecia contínuo, ininterrupto. O doutor solidificara este hábito domingueiro: sentar-se no fresco da sua varanda ouvindo, durante extensos momentos, a voz de Adriana Calcanhoto. Ora dormitava, ora lia, ora escrevia, ora se quedava simplesmente de olhos rasgados contemplando as nuvens gordas azularem o céu. Para ele não se tratava de beatificar um domingo, mas sim a própria paz. Aliás, «domingo» era, para o doutor, uma palavra muito interna. Fosse um poço.

Pressentindo isto – que o doutor se apresentava em pleno estado de domingo –, a mulher hesitou. Encostou a testa ao ferro do portão e quis acreditar no impossível: que não tinha sede. A testa latejava; os olhos se queriam, de facto, fechar, olvidar o mundo, cessar a prestação de serviços visuais. O frio do portão trouxe-lhe agrado aos dedos, ao coração também. A música invadia-lhe os poros. Então, aí sim, ela partilhou uma sensação com o doutor. Ele, no mesmo instante pensava: esta voz pode ser dividida. A voz de Adriana, empurrando a tarde: «será que a gente é louca, ou lúcida... quando quer que tudo vire música».

No intervalo de voz, a libélula decidiu acordar, mover-se em zum-zum aberto, e aterrisar junto aos apontamentos do doutor. Gatafunhos, memórias recusadas, esquebras de horas mais sensíveis que escusava aceitar como suas. «Eu perco o chão, eu não acho as palavras» – a voz cantava. Há anos que o doutor acertara as contas com os animais e se apaziguara numa relação equilibrada com eles. Mantinha uma relação ainda conflituosa com as baratas e os sardões, mas já não era homem para matar. Em vez disso, usava sorrir. Não raras vezes, pela manhã, sentia saudades de ver correr olongos como vira na infância, na província do Namibe; também por vezes, na praia, encontrando cavalos suados se detinha, de olhos a quererem fechar, saboreando o odor forte a pêlo de cavalo suado. Se feliz ou em vésperas de viajar, sonhava com borboletas brancas ou amarelas, e não procurava interpretar o sonhado. Há anos que fizera as pazes com os animais, incluindo a espécie dengosa dos gatos, à qual ele mesmo infligira uma baixa mortal. Os gatos, essencialmente os gatos, haviam-no reaproximado dos bichos.

Foi depois da libélula que reparou na mulher encostada ao seu portão, de olhos fechados, pareceu-lhe, a ouvir a música de Adriana: «tenho por princípios nunca fechar portas, mas... como mantê-las abertas, o tempo todo...»

Descruzou as pernas; lentamente as desceu da outra cadeira; enfiou as sandálias. Andando, mirava a tranquila libélula caminhando sobre as suas letras, sobre o cheiro da sua tinta 971 violet. Era tinta um tanto pegajosa, exigia mesmo um ritmo acelerado de escrita pois, em contacto com o ar, era veloz em solidificar. Mas a libélula, pouco curiosa, não chegaria ao frasco, não beberia. Um degrau, dois. Está junto ao portão e a mulher, ao contrário do que ele desejava, não abriu os olhos. Mas falou.

– Desculpe interrompê-lo...

Nem foi susto nem foi coisa de se descrever. Simplesmente o doutor não contava com aquela noção de proximidade.

– Reconheço o cheiro da tinta... O senhor escreve com uma pena?

– Não... Isto é... Bom, é uma espécie de pena.

O portão estava destrancado. Ele fez menção de o abrir, ela abriu os olhos, afastou-se ligeiramente das grades.

– Desculpe interrompê-lo, mas estou com muita sede – ela, talvez esperando que o doutor revelasse se desculpava ou não a intromissão, se havia alterado o seu humor.

O portão foi aberto pela mão certeira do doutor, enquanto a outra executava um gesto afável que a elucidou. Aquele homem não era facilmente perturbável. «Lá mesmo esqueci que o destino, sempre me quis só...» – cantava Adriana.

– Água ou refrigerante? – o doutor.

– Água, por favor.

A mulher viu a libélula parada. Tinha a cor demasiado viva para estar morta ou embalsamada, mas era totalmente imune ao vento que baloiçava as folhas de papel. Aproximou-se da mesa sem se sentar – a mulher. Por curiosidade olhou as letras sobre o branco, não no intuito de ler a composição, mas pelo hábito de apreciação estética da ortografia masculina. Era, viu depois, uma «espécie de pena», como lhe dissera o doutor, a que havia produzido aqueles gatafunhos encantadores. Não resistiu e chegou a mão perto: parecia cristal.

– É de vidro. Vidro mesmo. Não é bonita? – o doutor.

– Muito... É uma pena muito especial – a mulher.

A água, num copo normal, chegou-lhe às mãos. O doutor entretanto pousou o jarro no lado longínquo da mesa, sem perturbar a libélula. Convidou a mulher a sentar-se.

– Obrigado. O senhor deve estranhar, não?

– Estranhar?

– Pedirem-lhe água. Já ninguém toca às campainhas para pedir água, não é?

– É. A senhora não é de cá, pois não?

– Não.

A mulher serviu-se novamente. Bebia devagar, como convinha.

– Contava uma avó minha que, certa ocasião, em Silva Porto, um senhor lhe entrou pela casa adentro cheio de sede e lhe pediu água. A minha avó voltou à sala com um jarro de água muito fresca e assistiu-o beber três copos de água de seguida, sem parar.

– Foi?

– Foi. O senhor só teve tempo de lhe devolver o jarro, pois o copo partiu-se enquanto ele tombava no chão. Morreu ali mesmo, sabe? Desde então a minha avó vivia a contar esta estória, de resto, verdadeira, pois foi-me confirmada pelo meu avô – terminou o doutor.

– Não me assuste.

– Não foi para assustá-la, desculpe.

– E o que lhe disse o seu avô?

– Sabe, o meu avô era um homem de invulgar humor e sensibilidade. Em criança confirmou-me toda a estória e por fim disse-me: esse homem nem agradeceu a água à tua avó.

A mulher pousou o copo, respirou fundo.

– Sabe porquê que pedi água aqui na sua casa?

– Não.

– Por causa da música... Esta voz tão doce.

– Adriana.

– Como?

– Adriana Calcanhoto, cantora brasileira.

– É poeta?

– Também.

– Não... O senhor. O senhor é poeta?

– Ah, eu! Não, sou médico. E a senhora?

– Eu estou cá de férias.

A libélula progrediu no terreno. Finalmente mexeu-se, mas caminhando.

Na expressão de ambos era visível o espanto de duas crianças que atentas e boquiabertas assistissem, de repente, ao movimento gracioso de uma pedra. A libélula caminhou em direcção ao objecto. Num breve sacudir de asas saltou e voltou a estar quieta – uma guerreira demarcando o território conquistado. «E a greve entre as estrelas só para mim», a cantora progredia na varanda, na tarde.

O objecto era uma espessa redoma de vidro, certamente cara, que protegia uma pedra minúscula, cinzenta, banal. Uma pedra pequenina, era o máximo que se poderia dizer. Nem graciosa, nem peculiar, nem mesmo exótica ou atraente. Era uma pedra brutalmente vulgar. A instalação, contudo, valorizava a pedra.

– Julgo que o valor dessa pedra não pode ser medido pela sua aparência. É assim?

– Sim.

– Mas esta redoma parece muito bem trabalhada...

O doutor, num gesto resoluto, abanou a libélula – uma surpresa para a mulher e para a libélula. O insecto voltou a pousar sobre as letras. A pedra e a sua redoma foram arremessadas ao chão. A mulher não teve tempo de invocar um susto. O objecto bateu ruidosamente no chão por duas vezes e, após rolar alguns centímetros, terminou a digressão. O doutor pegou no objecto e voltou a pousá-lo sobre a mesa, ao pé das letras, dos papéis, da libélula. O insecto, num breve aspergir de asas, realcançou o seu posto.

– Nem todo o vidro é frágil, dizia o meu avô. Esta redoma é muito boa para proteger objectos valiosos.

A mulher voltou a sentir sede mas não quis incomodar.

– Uma oferta?

– Sim, uma oferta muito especial, muito sincera.

– Os médicos recebem muitas ofertas?

– Algumas, é uma maneira das pessoas expressarem carinho e gratidão.

E calou-se.

A mulher não queria partir mas julgou estar a forçar o momento. O doutor mantivera-se calado por mais de cinco minutos. À mulher pareceu justo que fosse sua a iniciativa de partir. A música parecia terminar e, a voz, era uma voz difícil de recordar no ouvido da memória.

– Adriana, disse?

– Adriana Calcanhoto. Brasileira.

– Muito obrigada pela água.

– De nada. Já sabe, beba sempre devagar.

– E agradeço antes de morrer!

O doutor quase sorriu. Os lábios contorceram-se; apenasmente uma tentação de sorriso. Talvez.

O portão foi aberto. A mulher, pegando propositadamente nas grades reconheceu a sensação de frieza na pele.

– Sabe, foi num domingo – iniciou o doutor. – Fui chamado à frente de combate e ninguém queria operar o homem: tinha uma espécie de explosivo preso à perna. Era uma operação muito delicada, ainda hoje penso nisso. Tive que fazer tudo muito devagar, enquanto o homem sofria com as dores, e ambos tínhamos que ser pacientes. Quase no fim, o soldado disse-me: deixa-me morrer, tou muito cansado já. Eu respondi: já te deixo morrer, deixa-me só salvar-te primeiro.

– Ele morreu?

– Não. A operação correu bem. Ele, no fim, quis dar-me uma prenda. Como não trazia nada, descalçou a bota e disse: agora já sei porquê que a pedra anda a me incomodar há dois dias. Toma lá, doutor, só pra não esquecermos esta nossa conversa de hoje. Você ficas com a pedra, eu fico com a cicatriz.

O portão fechou-se. A sede tinha passado. A mulher, caminhando lentamente pelo passeio, entendeu que era a pedra que valorizava a instalação. Ouviu passos. A música recomeçou: «minha música quer estar além do gosto, não quer ter rosto, não quer ser cultura.»

Entre duas folhas acastanhadas – numa janela de poeira – a mulher viu: a libélula, parada, ondululava o corpo. Fosse uma dança. Sob as suas patas, a pedra brutalmente vulgar repousava. Entre a memória do homem e a redoma inquebrantável de vidro.










Jangada para longe


    Si rotcha é pâgina! pedra ê sílaba

    si corpé é caneta! coraçon ê tinta


                    Corsino Fortes, Árvore & tambor.



Para ele o mundo era um quintal enorme dotado de compartimentos separados por água e fenómenos como as chuvas, as tempestades ou mesmo os ódios dos homens carregados em navios enormes eram gotículas para qualquer sorriso desfazer.

Por hábito, sentava-se no monte observando navios partir e chegar. Vivia obcecado com a ideia de conhecer outros países, mais do que isso!, outras gentes, como se as suas veias fossem irrigadas por sensações movediças e volúveis ao empurrão do vento, nisso que era o seu prazer mais íntimo: observar os que chegavam, cheirar-lhes os cabelos, catalogar-lhes o sorriso segundo a proveniência, e, quase imperceptivelmente, fazê-los falar de coisas banais acontecidas do outro lado do mundo.

Trabalhava há meses na secreta engenhoca, desenvolvendo no alpendre barulhos entrecortados com pancadinhas, importando para o habitáculo toda uma gama variada de pregos, panos, tubagens diversas, correntes, metais, tintas, até ao dia em que a barulhagem cessou e apenas restou o som de um assobio simples, desnutrido de qualquer ritmia mais complicada – como cantam os pássaros antes de terem molhado o bico na frescura da manhã.

Sem cerimónias para empolar o acontecimento, retirou o engenho da casa num lento mas eficaz berço semi-mecanizado, e o povoado sorriu em uníssono numa candura de espanto e respeito pelo enorme objecto misterioso que desfilava pelas pedras da calçada. O desfile solitário cessou na praça principal.

A estranha criatura de madeira era perturbante e bela, fria e poética, ridícula e cativadora, o que impelia os observadores locais a sorrir de modo involuntário, como se a incompreensão do seu funcionamento em vez do rancor pelo inventor antes instigasse uma sensação de autoria colectiva. Todos, cada um a seu tempo, modo e sorriso, sentiam patentes na obra o cunho da sua contribuição pessoal e nunca se saberá quem foi o primeiro jovem ou a primeira velha a depositar no corpo do ser móbil a primeira recordação, o segundo objecto de decoração, a terceira folha de árvore, a quarta estátua de madeira ou a quinta folha da secção de poesia do único jornal local. Naquilo que se julgou ser o guiador da máquina, a velha mais velha do povoado (sendo por isso, de certo modo, a mais bela) amarrou com vigor o único sibitchi que o engenho levaria.

Durante dois dias a exibição perdurou, numa ânsia que crescia por si e se alimentava de horas e olhares, tendo originado que a máquina fosse já outra, repleta de decorativos tradicionais, besuntada de cores vivas, vítima de peso duplicado pelas oferendas que as suas bagageiras abarrotavam. Crianças, aleijados e idosos, bebés de colo e cães vadios, nuvens e sóis, centopeias negras e pássaros brancos, marinheiros e putas pobres, comerciantes e doidos serenos, pescadores com estórias de sereias e ventos místicos, farmacêuticos e padres, bêbados e beatas, o governador e a esposa gorda e até um caixeiro viajante, estiveram todos na praça, no terceiro dia, aguardando as primeiras palavras do inventor da escultura já carnavalesca. A velha mais velha do povoado (sendo por isso a mais sabedora e intuitiva) viu o mundo e o povoado banhados pela névoa da sua lágrima idosa e todos então souberam: era uma máquina de se pedalar para longe.

Depois das palavras do governador, onde encorajava a atitude criativa do cidadão, elogiava com veemência e emoção a sua iniciativa cultural, declarando aquele dia feriado nacional, o inventor tomou a palavra e, nuns modos verbais desajeitados e caducos, instigou a população a contribuir com gravuras, comida seca, plantas medicinais, panos, sementes e livros ou registos pessoais de poesia:

– Poesia, sim... – disse, em banho de comoção. – Porque é isso que um povo deve oferecer a outro!

Mais adiantou o local da sua derradeira partida, explicando que faria esse longo percurso em velocidade lentíssima para que os conterrâneos apreciassem as qualidades da máquina, indagassem de suas potencialidades e lhe fossem entregando, nesse percurso inclinado para o lado de lá do mundo, as cartas, os recados e os conselhos válidos para a movimentação humana que aquela viagem materializava.

Ao longo da estrada, entre um e outro solavanco de pedra, exibiu ao povoado o complicado engenho que a sua imaginação fizera eclodir: uma labiríntica máquina de ventos e popas, tubos de refrigeração e reaproveitamento de líquidos e sopros, compartimentos impossíveis, reguladores de temperatura e duas enormes bagageiras para livros já com cantos falsos previstos para a naftalina em bola branca. Era máquina para ocupar meia dúzia de metros quadrados mas com estabilidade estudada e apetrechos científicos que a permitiam mover-se a vento, ácido úrico ou força humana que se expressasse em acto de pedalação.

Quando chegou à praia, nesse lento cortejo que havia acontecido, alguns dos ilustres convivas do povoado já lá o esperavam e, na tendência narcísica de se voltarem a ouvir, quiseram mesmo reinventar novos discursos. O dono da engenhoca dissuadiu-os de o fazer, enquanto se desfazia de alguns volumosos mantimentos gastronómicos que a população ofertara, sendo que a praia, azulada e linda, foi palco de um improvisado banquete de que as crianças puderam usufruir com certa euforia.

O fim da tarde, propício a momentos de marítima aventuragem, havia-se já instalado. Pássaros ao longe, o sol se extinguindo nas águas do mundo, o violão sorridente de Kaká Barbosa, as cervejas derretendo os corações e a mulata triste, ao longe também, que com o olhar se despedia do homem que partia.

        Movimento humano, rústico, o homem iniciou as movimentações – correntes puxadas e velas içadas, duas espécies de pedais que se desdobravam de tubos secretos, e a máquina de se pedalar revelou uma poética simbiose de jangada com algo que existisse sob a designação de bicicleta naval. As gentes afastaram-se do homem deixando-o a braços suados com a sequencial preparação mecânica que o acto requeria. E moveu-se – aquilo.

Uma onda embateu estrondosa na janguicleta, como seria mais tarde chamada, e os lábios de cima das pessoas se afastaram dos lábios de baixo – espanto e burburinho, pois a máquina dançava encaixada na curva das ondas, resistindo às laterais investidas da água, desenvolvendo um ruído manso e redistribuindo brilhos d’água nas gotas de sol que as enormes pás movimentavam.

A estranha criatura de madeira e o homem nela baloiçavam na direcção do horizonte estirado, e só então um padre despertou para a evidência do que não havia sido indagado:

– Ó nhôôôôô... – o berro sobre as gentes, sobre as águas. – Undi ki nhu átabai?

Lá das guelras salgadas da sua garganta, entre sorriso-só e suor-delícia, entre sombra de sol e raio lunar, entre certezismo hirto e utópico deslumbramento, o homem pedalante gritou assim:

– N’ta ba tê Spanha..., ta ba tê Merca di bicycleeeeetaaaaa!




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