dentro de mim faz Sul     [ poesia ]       


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dentro de mim...



em outubro de 2000, em Luanda, publiquei o livro de poesia actu sanguíneu (assim mesmo, com os respectivos u’s que hoje abandono).

depois da cerimónia formou-se uma generosa fila de amigos e de conhecidos que aguardava pelos autógrafos. secretamente, olhando para os seus rostos, lembro-me de ter pensado que era gente com o olhar vivo e uma ânsia alegre de conhecer o livro: “coitados, não sabem o que lhes espera...!”

actu sanguíneu era uma reunião, talvez extensa, de poemas escritos no fim da adolescência, onde a descoberta de manobras linguísticas se tornara veículo para dizer os mundos que me andavam por dentro. eram viagens internas que apelavam a «instantâneos» poemas vestidos de cores, cheiros, dores. ecos do que também andava a ler e a descobrir, e sobretudo pequenas explosões sensoriais que eu buscava controlar por via da palavra corrigida, mil vezes relida. mas – isso vi naquela altura e hoje me parece muito parecido... – havia um conjunto conseguido entre aquelas anotações; havia uma coerência, pelo menos, no trajecto. por isso as enviei para o concurso literário.

passaram-se anos desde a publicação desse meu primeiro livro. e ainda hoje me debato com esse mistério chamado poesia: vivemo-la? somos impelidos a deixá-la sair? fazemo-la em tom de narcísica confissão? precisamos dela para ir refazendo o labiríntico espelho onde, anos mais tarde, num relance de distracção, teremos a revelação de entender um pedaço da nossa existência?

...

dez anos depois, resolvi inventar esta pequena celebração. numa edição “especial” (digamos assim...), junto o primeiro livro e o mais recente. ambos de poesia mas, sobretudo, ambos do mesmo universo de poesia. que são portas que conduzem a um lado mais interno, não necessariamente mais ou menos literário que nas outras abordagens, mas talvez menos controlado. racionalmente falando.

e é bom sentir essa expiração lenta – morosa – que pode também ser a decisão de partilhar com os meus leitores um lado... (como direi...?) mais cicatrizado de mim. se digo


o deserto é minha casa


sei a que dimensões, a que falésias internas me refiro. e se partilho isso com quem me vai ler é – talvez – porque é chegada a hora de o fazer. (e) confesso que também escrevo para crescer, para me redescobrir, para errar, para (me) aprender novamente. para escutar quem me acompanha de perto e quem, de longe, também terá algo a dizer. sentimento demasiado inocente...?

se falo dos rituais, do maluvo, dos maquíxi à minha sombra, cifro ligeiramente a mensagem. não como hermético segredo, mas com discreta cumplicidade.


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chega de conversa, diria o meu avô aníbal. e teria razão. pescador toda a vida, apreendeu essas secretas passagens que o silêncio incute e promove. falar, afinal, não é matar de modo inconsistente todos os modos do sossego?

o que, por agora, tinha para dizer deve estar nas páginas que se seguem. dez anos antes ou depois, há frases que nos vão resumindo – cicatrizam-se em nós (porque o mundo / assim como sou / não me basta). pensei também em dizer que, algures, entre estes dois livros, seguem longas linhas de uma sincera confissão. mas depois vi que isso seria uma redundância humana.

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de resto, também dizemos coisas quando não as dizemos...




ondjaki

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que língua falam os pássaros

de madrugada

que não a do amor?


escuto a madrugada

– lento manancial de céus.


os pássaros

são mais sabedores.


...




o que cabe numa página

é metade do odor

de cada lágrima por recordar.


não se vê o sangue

não há vestígios de quem espera

o nascimento de uma estrela

oriunda do mar.


o que cabe numa praia

é o olhar daquele que se senta

sessenta segundos

olhando o mar.


não ficam anéis na areia

não ficam pegadas

do que foram os dedos

sôfregos

esgravatando por paz.


...




quero reaprender o amor na respiração das tuas mãos


quero-me sentado nas pálpebras quietas do teu olhar. quero me goiabar em ti, caroço e casca, verme e moço, seiva e corpo


tu – minha noite redonda


minha madrugada mulata.


...




lutamos no corpo da noite e no momento bruto de acordar.

entre brumas, o rosto se revela:

nós somos o nosso ódio e a nossa cura.


...




os óleos, os olhos, as almas

[à paula tavares, ao ruy d. carvalho]


rituais

a que a manhã obriga.

o olhar, a lágrima.


a água

para os mortos.


as rezas sobre o chão dos que já partiram.

o respeito.

a reflexão.

a herança.

a tradição se exala das raízes

dos pássaros e do mar.

nossos poros se inundam.

a lua

leve

faz-nos brisa.


rituais

a que o corpo obriga.

a flor, a despedida.


o maluvo

para os mortos.


...




quero perder-me

na densidade poética

da nuvem.


...




sete maquíxi

à minha sombra.


medo e música.


morre o coração

enquanto caminho errante

na torta direcção.

tédio nas noites em que me

não reconheço;

violentações internas que as lágrimas

acusam

nas manhãs que humedeço.


voltar e partir

baloiço e rum

partir e chegar

a porto nenhum


vontades aleatórias – externas


os olhos tristes

depois do que sinto.


olhos em lince


o que prevalece

da semente humana

e

do instinto.