actu sanguineu [ poesia ]       




“O poema é solitário. É solitário e vai a caminho. Quem o escreve torna-se parte integrante dele."

[Paul Celan, Arte Poética]










azuL




I

que o amor é rosa e cacto

e espinho,

e eu sou prosa e pranto

e vinho.

do canto e do verso quero

a curva anunciada.

do manto e do inverso, peço

a lareira inapagada.

e feliz, não morto por um triz

quero luz para apalpar.

que o amor é onda e asa

e frio,

e o vento fez-me aterrar.




II

noite de vulcão mais que acordado peço-te

deixa-me em paz;

e grão de areia sendo

sopra-me como se precisasses de

empunhar e empurrar

uma pedra não amigável.

e rompe o céu através de mim;

joga-me verticalmente contra as

tuas vísceras mais aladas,

faz-me brilhar na velocidade,

desaparecer no contacto químico

com o universo.

chama-me átomo e cospe-me.

preciso de não estar aqui.




III

da morte

a bélica aparição.

pois, senão.

a marcha séria, contusa

o passo pesado, a expressão crítica,

obtusa.

a corrente no canal,

o espaço, o horizonte, a calma,

o roxo

na marginal.

como a curva de resto inclinada

o banco sujo

as folhas recaindo sobre o Outono

dentro de cada um.

a bala, bum!

da morte

a risonha aparição.

pois, celebração.




IV - "na qualidade rara de sereia"

(com direcção a gilberto gil)


a espuma em sangue da praia

traz o sabor inválido

- cálido -

da ex-sereia.

morta; torta em seus braços leves,

repartidos.

que comece a festa.

cotovelos aos curiosos, ancas aos

furiosos.

pés aos pianistas, pêlos aos

reformados.

cabelos aos perfumantes, lóbulos aos

fabricantes.

sexo, axilas, narinas, nádegas aos

de algum dinheiro.

a réstia, o resto inteiro

a quem chegar primeiro.

o vento em sangue da praia

traz a recordação pálida

- alada -

da arenosa sereia.

granular.

morta em seus batimentos rasos,

desaparecidos. idos.




V

voto na pomba.

azul, preferencialmente.

que a paz do branco está gasta

e triste,

e o azul me invoca o céu,

porta do que não viste.

voto no corvo;

gritante, matinalmente.

de suas espessas penas

onde o negro me reboca ao veludo,

braço macio para quase tudo.

voto no jacó;

mas que fosse mudo.




VI

cónego! abre a porta

esta gente quer entrar.

não quer só sentar;

quer ver-te os modos,

sonhar, estar.

da chávena advém o fumo,

mais tarde diremos

do rumo.

uma veste simples

um casaco antigo.

agasalha-te da morte:

ela quer deitar-se contigo.




VII - "a joão ubaldo ribeiro"


há o bigode caído e

redondo

dos lados;

o teu olhar achinesado

compreensivo, escuro,

azulado

esperançoso.

há o brilho pátrida

na tua testa;

dentes entremeadamente sorrindo para aqui.

o pescoço reptilizante

a camisa que foi azul.

teus cabelos escasseiam;

teu sorriso - em letras -

talvez se eternize.




VIII

subjazem barris castanhos

à manhã.

amanhã, finalmente, notarão nos relógios

a ferrugem.

uma mulher branca e nua

abre a porta

abre as pernas de penugem.

que as aragens se confundam;

que os sexos celebrem a humidade

do contacto, do com tacto.

a saia no chão,

a vela ao pé.

o cabelo na bruta mão

queimado à luz da fé.

na manhã, finalmente, a marca dos

relógios

na penugem.

subjaz o cheiro aqueimado,

o dente, o cóccix

quebrado.




IX

passeio claro, horizontal, na paralisia dos mares. em direcção à Europa, em odorificação à velha Europa. uma bengala, uma photo antiquada, um baú castanho, uma velha amarrada. em direcção ao mar recai o cavalo solene, suas cinzas, suas cintas. que calmaria na beleza pastoral de um rumo… que calmaria. mais diria: ao rio que se pausasse, à ventania que me vivificasse. uma folha, um papel, uma porta de ferro, uma estação encerrada. inanimada. um revólver claro, pontual, na paralisia dos corações.




X

choras porque a cegueira é voraz.

choras porque o espelho não reflecte

a tua vontade.

a nuvem acinzentou-se por sobre

ti,

o revólver está pronto.

choras porque a chave é imaginária

e a porta sólida em demasia.

porque mesmo na cegueira se

distingue o sangue próprio.

choras porque a fraqueza te sobrepesa

as sobrancelhas, as pálpebras

os olhares.

choras no sufoco de pouco acontecer,

pouco conseguir ver.




XI

roem-se fios ao ferro,

encaracolam-se enfim odores.

da noite, apenas a réstia de som,

algum veludo, algum entrudo.

suspiros e faíscas derrubando

a escuridão.

entre a carne da unha

e a pele da mão

a escultura cresce - a fogo -

do que foi ferro.

uma queda solitária

uma réstia de luz:

eu-berro.




XII

da greve do dedo

à gravidade do enredo,

o peso morno

a cabeça pesada,

o floreado contorno

na enseada.

bengala de sonho:

o que o sono traz

- o mais das vezes -

é paz.

da cor do vinho

irritantemente

o que era caminho

torna-se ausente.

a escuridão é bruta

- diz o povo -

e não ajuda a gente.




XIII - "sangue" [em valsa lenta]


interrompida a caminhada

urge saborear o suor ainda vivo

de cada mapa, cada rio digital

na ponta de um dedo ébrio.

suor salgado, viajado

suor de veia intrínseca, recolhida,

proibida.

urge cumprimentar a língua

o lábio em sangue

o dente viril.

que suor, sal e sangue

- noutros caminhos -

sê-lo-ão sempre. sempre.




XIV - "de pulsos"


tens o pulso tão belo. agora entendo porque o mordes.

como se o sofrimento fosse nada ao pé do toque. como se a sensação canina da boca em contacto com o sangue se desintegrasse não por vontade tua mas pela magia da beleza, do encanto redondo do teu pulso.

como que te oiço o coração enquanto o mordes; como que te mordo o outro pulso, ah, claro, se pudesse, se houvesse.

tens o pulso tão belo. como que arredondo e, feito flor, estranhamente humano.




XV

quatro malefícios na ponta curva

do pé.

a perna cruzada, os pêlos dela

que daqui vejo.

a ponta dependurada do chinelo

e a música que empurra

empanturra

a lágrima.

quatro pernas manhosas tem a mesa;

na cabeceira o traje, o trapo

de crochet.

um alfinete, um algodão

e o frasco de álcool à esquerda

na mão.

se adormecer pode ser que caia;

se adormecer

adormeci a bitacaia.




XVI

escreve-se de noite.

na casa de um amigo onde o

chinelo da volúpia é roto;

escreve-se para o outro.

para que a metade ausente do sonho

se liquidifique

e apareça;

no justo retorno à cama,

na merecida temperatura calma.

morena, serena.

escreve-se o torto para intimidar

o direito;

afaga-se a diagonal, o caminho férreo

na cicatriz do peito.

no apertado adorno da campa

na esmorecida quentura da alma.




XVII

regresso porque me dói

a parte escondida da perna.

e peço, com a mão mais direita,

para escrever em ti.

regresso porque

acima de tudo

me quero experimentar.

a mim: o sanguíneu.

o actor sanguíneu.



surprise

...

try this








[ home ]    |    [ eng ]    |    [ spa ]

twitter.com/ondjaki   |   english   |   español