a bicicleta que tinha bigodes [2011]

   

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Na minha rua vive o tio Rui, que é escritor e inventa estórias e poemas que até chegam a outros países muito internacionais.

O CamaradaMudo, um senhor gordo que fala pouco e está sempre sentado na esquina da nossa rua, disse que essas estórias já foram transformadas em peças de teatro num país com nome comprido, parece que se diz "Julgoeslávia".

Quando ouvi a notícia na rádio, que iam dar uma bicicleta bem bonita, amarela, vermelha e preta, lembrei-me logo de falar com o tio Rui. Era um concurso nacional com primeiro prémio de uma bicicleta colorida que já apareceu na televisão, mas nesse dia na nossa rua não havia luz.

De noite, a falar com a minha almofada, eu até já prometi bem as coisas: “se eu ganhar a bicicleta colorida, vou deixar todos da minha rua andarem sem pedir nada, nem gelados nem xuínga.”

Essa promessa assim bem dura de fazer é que me fazia acreditar que eu ia mesmo ganhar a bicicleta.

Mas eu não tenho jeito nenhum para essa coisa das estórias. Falei com outros miúdos, para saber quem tinha ideias, quem queria participar no concurso nacional da bicicleta colorida, mas todos me gozam a dizer que essa bicicleta já deve ter dono, que já sabem quem é que vai ganhar.

Não entendi aquilo, mas não desisti. Fui ainda falar com o CamaradaMudo.

– É verdade que essa bicicleta que estão a anunciar na rádio não é de verdade?

– Claro que é de verdade – o CamaradaMudo respondeu. – Tu tens uma boa estória?

– Eu só tenho uma boa vontade de ganhar essa bicicleta.

– Mas para ganhares tens de inventar uma estória.

– Tou masé a pensar que devíamos pedir patrocínio no tio Rui, aquele que escreve bué de poemas.

– Isso não é batota?

– Batota porquê?

– E as outras crianças?

– Quero lá saber, não tenho culpa que o tio Rui vive aqui na minha rua. Eles que descubram também o escritor da rua deles.


O tio Rui é simpático e tem sempre bué de pressa.

Às vezes nos dá dinheiro para irmos comprar gelado e, no dia 1 de Junho, podemos entrar todos no quintal da casa dele para ouvir algumas estórias que ele lê directamente dos papéis amarelos onde ele escreve. Fala com uma voz constipada e algumas palavras mesmo são difíceis de entender. Eu pensava que era só o modo de falar, mas a minha amiga Isaura é que me explicou um dia.

– Não vês como são os bigodes do tio Rui?

– São como?

– São assim tipo capim que já não se corta desde o último Cacimbo.

– E depois?

– Depois que alguns sons e algumas palavras ficam presas no bigode. Então só ouvimos já o resto.

A Isaura tem sempre ideias complicadas. Fica muito tempo sentada no quintal dela a olhar as andorinhas, as lesmas e até conhece cada gafanhoto do jardim dela. Dá nomes de pessoas aos bichos mas não sabe bem a tabuada.

– Quatro vezes quatro? – perguntava o CamaradaMudo quando ainda dava explicações de matemática.

– Não sei, mas por exemplo, o gafanhoto Samora Machel gosta mais das plantas da casa do tio Rui, e só come antes das onze. Se está muito sol, vai-se esconder.

Nós ríamos daquela maluquice dela, ainda perguntávamos mais.

– Seis vezes três?

– Não sei, mas a lesma Senghor é muito estranha porque anda a fazer uma casa com pedrinhas que vai buscar no fundo do quintal e um dia destes pode ser pisada.

A Isaura, como é vizinha do tio Rui, tem boas informações.

– O tio Rui, à tarde, fica na varanda dele a escrever. Primeiro pensa, depois fala em voz alta e depois é que escreve.

– Como é que sabes que ele tá a pensar?

– És burro ou quê? – a Isaura olhou para mim espantada. – Não sabes que quando os mais velhos coçam muito tempo o bigode é porque estão a pensar?

A Isaura dá nomes de presidentes aos bichos do quintal dela, e porque são muitos bichos, ela sabe nomes de muitos presidentes. Podem ser nomes também de alguns que já morreram ou mesmo outros que não foram presidentes mas pessoas assim importantes.

O gato dela se chama Ghandi, acho que era um senhor tipo indiano ou quê. O cão se chama Amilcar Cabral, até lhe chamamos de Amilcar Cãobral. A lesma é Senghor, os gafanhotos são Samora, Mobutu e Khadafi, os sapos se chamam Raúl e Fidel. Parece que também deu nomes aos passarinhos mas nunca consegui decorar a lista toda.

Agora é que me lembrei, há um papagaio chamado JoãoPauloTerceiro, filho do falecido jacó JoãoPauloSegundo que tinha morrido na boca do próprio Ghandi. É que o Ghandi, antes não se chamava Ghandi, se chamava Tátecher! Só depois de comer os papagaios é que lhe cortaram os tímbalos e ficou mais calmo a miar devagarinho e a não arranhar ninguém. Mas eu não posso dizer "tímbalos", nem mesmo "timbalóides", porque a minha AvóDezanove não gosta que eu diga disparates.


Depois do jantar, a luz foi.

Estavam já algumas crianças na rua e a Isaura veio também. Era sempre assim, quando a luz faltava, as pessoas se juntavam nesse muro perto da casa do tio Rui. Às vezes mesmo o tio Rui também vinha cá fora ouvir a nossa conversa e ficar a rir, depois anotava as coisas que as crianças diziam nessas folhas de papel amarelo.

Mas o tio Rui não veio. Só o CamaradaMudo chegou perto.

– Camarada Mudo – a Isaura começou – assim foi avaria só de quinze minutos ou é coisa séria?

– Pelo modo como a luz foi, assim sem tremer nem nada, acho que foi mesmo corte intencional.

– "Corte intencional" é como então? – eu perguntei.

– É quando a Edél corta a luz porque quer.

– Mas a Edél existe para dar ou para cortar a luz?

Mais à frente, perto da casa do GeneralDorminhoco, ouvimos uma travagem brusca do jipe dele. Quem conduz o jipe do GeneralDorminhoco é um motorista que nunca soubemos o verdadeiro nome dele. Lhe chamamos só de "9", já lhe encontrámos com esse nome, dizem que ele já atropelou mortalmente nove pessoas, sempre de noite. A Isaura foi a correr a ver o que tinha acontecido, porque não ouvimos gritos, então se não foi pessoa só podia ser mesmo bicho. E ela tinha razão.

Quando eu, o CamaradaMudo e o JorgeTemCalma chegámos, a Isaura estava a chorar e a pedir ao "9" para fazer marcha-trás.

– Matáste o meu sapo – ela chorava.

– Há maka? – perguntou o CamaradaMudo.

– Eu só travei porque os miúdos gritaram, mas não vi nada – se desculpou o "9".

Mas a Isaura sabia. Eu também. Aquela era a hora de os sapos atravessarem a rua e irem beber água numa lagoazinha de água parada, que também tinha capins castanhos e às vezes também dava flores bonitas, sempre no mês de Novembro. Mesmo a Isaura uma vez me disse que naquela lagoa ela já tinha visto gambozinos coloridos a imitarem um arco-íris.

– Tu viste mesmo esses gambozinos?

– Vi sim. Tinham as cores do arco-íris, e outras cores que vocês nunca viram.

– E não apanhaste um só pra nós vermos também?

– A minha Avó disse que não se pode apanhar um gambozino.



            (...)



        – Os sapos têm alma?

A AvóDezanove sorriu e esperou. A Isaura olhou para ela esperando uma resposta que nunca veio.

– Também queria agradecer o camarada motorista "9", quer dizer, "10", por ter aceitado assim mudar de nome na conta da morte do sapo. E pronto, também isto não é nenhum jogo de futebol – a Isaura sorriu – não precisa demorar 90 minutos. Obrigada a todos.

Escapámos quase bater palmas, mas não se podia. Cada um foi para a sua casa. Ficaram os miúdos. Os miúdos são sempre os últimos a querer ir embora.

– Isaura, se tu quiseres – falou o JorgeTemCalma – um primo meu, de Benguela, mora perto de um rio. Lá tem bué de sapos e são bem grandes. Posso pedir ao meu pai para trazer um de lá. Só não sei se sapo de rio sabe viver aqui na nossa cidade de Luanda...

– Jorge, tem calma e não fales à toa.

– Não fales tu à toa – a Isaura disse. – Obrigado, Jorge, mas acho que não. Aqui em Luanda estão a atropelar muito, é melhor cada sapo ficar na sua província.

O JorgeTemCalma disse que tinha que ir embora porque senão iam lhe ralhar. Olhei de novo para os capins da lagoa: os pirilampos tinham começado a piscar de novo.

– Adoro pirilampos – a Isaura falou.

– Adoro estrelas quando o céu tá todo escuro – eu falei.

– É a mesma coisa.

– Isaura – comecei.

– Diz.

– Desculpa só meter o assunto assim de repente em cima do enterro...

– Podes falar.

– Queria te perguntar se não queres me ajudar a ganhar a tal bicicleta do concurso. Se nós ganhássemos a bicicleta até podia ficar dos dois.

A Isaura sentou no chão.

– Esse concurso da Rádio Nacional?

– Sim, esse mesmo. Inventamos uma estória juntos e ganhamos a bicicleta. Fica dos dois.

– Isso não ia dar problemas?

– Não. A bicicleta fica contigo segunda, quarta e sexta. Depois trocamos, terça, quinta e sábado fica comigo.

– E domingo?

– Domingo fica também comigo.

– Porquê?

– Porque eu sou rapaz.

– E então?

– Nós gostamos mais de bicicletas que vocês.

– Não é verdade, desculpa lá. Eu também gosto de bicicletas.

– Então domingo emprestamos a bicicleta ao tio Rui.

– Boa ideia, ele também gosta de andar de bicicleta.

Sentei-me também no chão ao pé dela. Os pirilampos acendiam e piscavam muito.

– Estes pirilampos aumentaram a potência ou quê?

A Isaura riu.

– Não, acho que tá a ficar mais escuro. Temos de ir para casa.

– Então e a estória?

– Eu não tenho nenhuma boa ideia.

– Mas eu tenho.

– Para a estória? Então podes escrever e ganhar.

– Não, eu tenho uma ideia para conseguirmos uma boa estória.

– Não entendi.

– A caixa do tio Rui – falei baixinho.

– Shiuuu!, já te disse que isso é um segredo, não podes falar a ninguém nisso. Tu tinhas prometido.

– Só estou a falar contigo!

– Nem comigo. Um segredo é uma coisa de pensar, não se diz.

A Isaura levantou-se e foi a correr para a casa dela.

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“essa fogueira de sermos meninos”



o corpo deste texto é um abraço de amizade e de saudade:

ao luís bernardo honwana – esta minha Isaura é em homenagem à tua...; obrigado pela tua voz, pelo Cão Tinhoso, pelos olhos da tua Isaura;

e ao manuel rui – tu sabes: (quase) todos nós, dos anos 80, somos um pouco a ficção e a realidade do teu “Quem me dera ser onda”; obrigado pelo teu olhar também, em voz de contar e de dizer as nossas brincadeiras de rua, mais as estigas nas bermas da nossa língua toda desportuguesa...

...

não há como fugir ao que tem de ser dito: escrevemos em busca da voz que mais nos fala por dentro. ajustando a vida (a escrita?) às “falas do lugar”. escrevendo para lembrar o que ainda não tinha sido contado...

vos agradeço, vos abraço: em criança como agora, eu andava em busca das vossas estórias para fingir e acreditar que os livros sempre inventam essa fogueira de sermos meninos à volta dela...


ondjaki