- Gritos azuis? Nunca ouvi falar.

- São palavras gritadas no fundo do mar, as crianças é que sabem. Os pássaros também.

- E os peixes?

- Os peixes ainda não sabem gritar bem. Devem ser de outra cor, as palavras dos peixes.

  1. -Tu já gritaste no fundo do mar?

  2. -Tantas vezes. Queres experimentar?





A explosão até acordou os pássaros adormecidos nas árvores e os peixes devagarosos do mar – aconteceram cores de um carnaval nunca visto, amarelo misturado com vermelho a fingir que é laranja num verde azulado, brilhos a imitar a força das estrelas deitadas no céu e barulho tipo guerra dos aviões mig. Era afinal uma explosão bonita de ser demorada nos ruídos das cores lindas que os nossos olhos olharam para nunca mais esquecer.

Nós, as crianças, ficámos a olhar o céu se encher de umas maravilhas acesas como se todos os arcos-íris do mundo tivessem vindo a correr fazer um brinde no tecto da nossa cidade escura de Luanda.

Uma explosão podia ser tão bonita, e as nossas bocas abertas testemunhavam um silêncio de pessoas perto de um barulho desenhado nas alturas dos pássaros todos que nessa noite aprenderam que o mundo era um lugar muito estranho, com pessoas de tantas nacionalidades e que em Luanda tudo afinal podia mesmo acontecer de repentemente.

Foi na PraiaDoBispo, no largo onde havia a bomba de gasolina, perto da entrada da famosa obra do Mausoléu.

De tanto olharmos as cores com barulhos voadores no céu iluminado, poucos notaram que a enorme obra, que os mais-velhos diziam ser vertical, alta e com figura de um foguetão,, essa obra de tantas tarefas com poeira e mil trabalhadores cansados, tinha começado a não existir mais, sobrando apenas uma poeira cinzenta que demorou muito tempo a baixar.

Foi num tempo que os mais-velhos chamam de antigamente. Muito perto da casa da minha AvóAgnette, mais conhecida na PraiaDoBispo por AvóDezanove.





Em frente à casa da AvóAgnette fazíamos desenhos no chão para depois fugirmos dos camiões de água que vinham ao fim da tarde para acalmar a poeira.

Era um largo bem grande, com uma bomba de gasolina no meio que virava rotunda para camiões e carros darem a volta a fingir que a cidade era grande.

O camarada VendedorDeGasolina podia dormir muito durante o serviço porque a bomba nunca tinha gasolina. Só acordava com as falas do maluco EspumaDoMar:

– Essas estrelas que caem de repente têm nome: são estrelas calientes, e isto não é discurso de diamba, sei o que tou a falar com a minha boca de tantos dentes...

Do outro lado da bomba, estavam as gigantescas obras do Mausoléu, um lugar que andavam a construir para guardar o corpo embalsamado do camarada presidente AgostinhoNeto, que andava estes anos todos bem embalsamado por uns soviéticos craques nessa arte de manter uma pessoa ainda com bom aspecto de se olhar.

Atrás das obras, do lado de lá do nosso largo, ali onde a poeira não conseguia nunca aterrar, ficava essa coisa linda que todos dias me ensinava a cor azul: o mar grande, mais conhecido por oceano.

– Vocês falam estrelas cadentes, mas eu conheço os dicionários todos da língua angolana e da cubana. Estrelas calientes são fenómenos dos céus do universo escuro, a poeira cósmica e etecetera... Seus patetas que nunca andaram nas escolas universitárias!

Nós, as crianças, ríamos gargalhadas redondas que quase se viam desenhadas no ar. Ficávamos calados em espanto e magia a ouvir as frases do camarada maluco.

– Aprendam meninos, há dois céus: o céu azul que pertence aos nossos olhos e às asas dos aviões e dos passarinhos. E existe um céu negro que é tão grande como um deserto.

Quase não tínhamos medo do EspumaDoMar, nunca que tinha feito mal a ninguém só.

– As estrelas calientes derreteram com os calores do sol e por isso caem em direcção ao planeta mundo. Nuestro planeta es el unico que tiene agua para elas arrefecerem outra vez. São estrelas calientes, e um dia, depois de arrefecidas, juro, esas estrellas van a querer volver a casa…

Ele arrastava os panos e ia embora a rir um riso nervoso que também podia ser choro, cada vez mais rápido quase a correr, a levantar poeiras com os pés dele descalços, a ir sempre em frente como se fosse entrar no mar.

– Ainda vamos ver essas estrelas subirem, da terra para lá em cima, nos céus que dormem longe vestidos de brilhos brilhantes...

Na nossa varanda poeirenta, a AvóCatarina, irmã da AvóAgnette, aparecia devagar vestida de preto no antigo luto dela e os cabelos branquinhos como algodão fofo.

– Ainda de luto, dona Catarina? – perguntava a vizinha DonaLibânia.

– Enquanto a guerra durar no nosso país, comadre, todos os mortos são meus filhos.

A AvóNhé regava as plantas, os arbustos e as árvores com um fiozinho de água que aparecia às terças e quintas-feiras. Regava a goiabeira e a figueira, a árvore de sape-sape, as rosas, a palmeira e a mangueira. Depois molhava as escadas e as flores dos vasos.

– Meninos!, todos para dentro. Está na hora do lanche.

A hora do lanche era uma coisa complicada para nós: tinhamos que ir lavar os sovacos, as mãos e a cara antes de sentar à mesa. Pouco depois das cinco, o camião com água dos soviéticos ia passar para "acalmar" a poeira da rua e dos passeios. Comíamos meia fatia de pão, meia banana e um copo de água.

– Quem quiser pode também fazer gonguenha mas com pouco açúcar que está quase a acabar.

Às vezes no caminho apanhávamos goiabas ou mangas que os morcegos tinham esquecido de atacar.

Um dos primos ficava com a missão de estar atento aos barulhos. O camarada VendedorDeGasolina acordava quando, dentro das obras do Mausoléu, o condutor soviético ligava o camião da água. Era o sinal. O maluco EspumaDoMar aparecia no portão da casa dele com um chicote pequenino a baloiçar com o vento nas pernas dele.

– AvóCatarina, é verdade que o EspumaDoMar tem um jacaré guardado no quintal dele, na casota do cão?

– Pode ser – a Avó ria.

– E jacaré cabe numa casota de cão?

– Se for pequenino.

Uns tinham medo dessa estória, outros riam de nervos, a comer depressa para irmos para a rua outra vez. A AvóAgnette não estava em casa, tinha ido a um funeral de última hora.

– Aqui em Luanda as pessoas morrem sem avisar. Que falta de educação! – a AvóCatarina dizia.

Uns remoinhos de vento levantavam a poeira do fim da tarde e as folhas do largo do Mausoléu dançavam no ar sem querer ir muito longe.

O camarada VendedorDeGasolina começava a fechar a bomba de gasolina, o EspumaDoMar dançava como se o vento fosse uma música de casamento e muitos trabalhadores, vestidos de fato-macaco azul e capacetes amarelos, saíam do portão principal do Mausoléu. Homens de mãos dadas, a rir, a tirar os capacetes, a beber umas poucas cervejas, a esfregarem os olhos por causa das lágrimas que a poeira inventa.

– Trabalhar deve ser muito chato – falou o Pi – todo mundo fica contente quando é hora de ir para casa.

O nome dele verdadeiro era Pinduca, e o nome de casa era só Pi, até que o EspumaDoMar, que tinha estudado muitas matemáticas em Cuba até ficar maluco, nos disse que Pi era igual a "3,14". Mesmo sem entender, gostámos muito desse nome com som de números e uma vírgula também.

Diziam que as obras do Mausoléu estavam quase a acabar. Aquela parte comprida, cinzenta, feita de um cimento bem duro para não cair nunca, parecia um foguetão e acho que depois iam pintar com as cores da bandeira de Angola, mas isso podia ser mentira da Charlita.

– O meu pai tem um bar onde os trabalhadores compram lá cerveja. E ele ouve as conversas dos camaradas trabalhadores.

– Mas o bar do teu pai nunca tem cerveja – o "3,14" gozou e fugimos a correr no meio da poeirada.

O soviético do camião-cisterna buzinou e cuspiu as palavras dele na língua soviética que era muito estranha e não se entendia nada. O camarada VendedorDeGasolina mudou de roupa e de sapatos e ficou ali à espera que o camião molhasse o largo todo. Os trabalhadores desapareceram e começaram a chegar milhares de andorinhas de todos os lados do céu. O chão ficou húmido com um cheiro bonito a imitar a chuva verdadeira quando chega com força para regar o mundo.

O último a sair da obra, que tinha um capacete diferente e trancava o cadeado do portão grande, era o soviético camarada "Botardov", que nós lhe demos esse nome por causa do modo como ele dizia, quase a falar soviético, "bótard", mesmo que fosse de manhã cedo ou à noite já bem noitinha. Nós imitávamos para depois rirmos.

– Bótard, camarada Botardov!

– Bótard – ele respondia sério sem nunca rir.

– Camarada Botardov, é verdade que as obras do Mausoléu estão quase a acabar? – o "3,14" perguntou.

– Niet! – ele disse com cara de mau.

Do outro lado do largo, o vento fazia desenhos no mar. Chegou também a Charlita com os óculos dela muito grossos.

– Tu vês o sol igual a nós, Charlita?

– Claro que sim.

– E se tirares os óculos?

– Aí não vejo quase nada. Só manchas.

– Eu ainda um dia quero ver essas manchas, devem ser tipo aguarelas.

O sol enorme, que parecia ali tão perto, mergulhava a ferver na água do mar. Se calhar é por isso que a água aqui em Luanda é tão quentinha nas praias. E ainda parece que o sol dava ordens ao vento para ele se acalmar. O vento parava de assobiar e sobrava na PraiaDoBispo só o chão molhado e um silêncio de não se ouvir quase nada.

– Vó Nhéte está? – perguntou o camarada Botardov.

– Niet! – respondi.

– Antón favor dizer eu vólt manhã.

– Kaput iés – o "3,14" inventou. – Vai lá tuparióvski!

Aquelas eram palavras do SenhorTuarles, que por tudo e por nada gostava de dizer "tuparióv".

O camarada Botardov afastou-se caminhando com os pés para dentro e muito rápido como se estivesse sempre atrasado. O carro dele, um Niva de cor horrorosa, estava do outro lado da rua. Demorava a pegar, fazia explosões no tubo de escape e depois arrancava.

O EspumaDoMar fazia festinhas no chicote dele. A AvóMaria veio chamar a Charlita para entrar em casa, o camarada VendedorDeGasolina fez adeus e desapareceu.

– Até manhóvski, camráde! – o "3,14" despediu-se.

Lá longe, numa escuridão de sombras, o VelhoPescador tinha acabado de chegar. Saiu da canoa dele, embrulhou a rede devagar, guardou as duas âncoras e fez-me adeus.

         – Cuidado mais-velho, o mar está cheio de águas salgadas – gritou o EspumaDo-Mar. – São as lágrimas dos que já morreram recentemente.




:::




home [pt] | twitter.com/ondjaki   |   english

AvóDezanove e o segredo do soviético [ romance ]

home [pt]  /  [eng]  /  [spa]